Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Publicado em: às quinta-feira, 19 maio, 2011 em 1:58  Comentários (2)  

Escombros

Neste mundo assombrado por demônios, que se há de fazer senão levantar uma pedra e dizer “veja, não há ninguém aí embaixo”? A natureza não se colocará a milagres e as igrejas, templos e outros erros humanos cairão com terremotos – com sorte também com vulcões e maremotos. Penso que religiões não ocorrem por acaso, tanto quanto acidentes nucleares jamais poderão ser chamados de acidentes sem a incoerência se instalar. O risco calculado, onde está? Para onde vão aqueles que correm de tiroteios, desabamentos e tsunamis?

Temo pelo mundo humano.

Sorrio à promiscuidade da vida que, sem dúvida, inventará espécies mais fantásticas.

Publicado em: às quinta-feira, 14 abril, 2011 em 23:39  Comentários (3)  

Co-Romper!

 

Quero uma poesia meio purê de batatas

Sem nabo nem choro, quiabo nem vela!

A quantos nós vão os versos que desatas?

Faça logo, a óleo, giz, recorte ou aquarela

Traga-me já, para ontem, que dure amanhã

(mas a manhã inteira e um pouco mais tarde)

Prefiro madura, mas já aceito verde-maçã!

As palavras às vezes fazem greve geral e partem para o golpe militar tão logo lhes damos o benefício de um ócio criativo.

Publicado em: às terça-feira, 1 fevereiro, 2011 em 21:55  Comentários (3)  

Exceção Geral

 

Foi um sonho ou uma valsa entre a porta e a rua, homens desciam a rua armados, batiam à porta e correram para dentro. Era preciso estar atendo às janelas, aos ruídos, às matilhas.

Não havia mais a sensação de estar à espera, mesmo as portas não pretendiam estar fechadas quando chegava na antessala. Era um desses que, sabendo-se forte, não fazia demonstrações ou praticava abusos. Ressuscitado de anos de resignação, aquele não era um a mais. Sua fraqueza era estar no tempo errado. O tempo dos homens já passara.

 

Publicado em: às domingo, 7 novembro, 2010 em 21:42  Comentários (1)  

Viajar no Tempo

Lembramos que estávamos felizes, mas não lembramos dos músculos se contraindo para sorrir. Choramos co’as vacinas da infância, mas não lembramos da tal “picadinha” que a enfermeira falou.

Frequentei um outro espaço, visitei um outro corpo que não este. Seis anos atrás. Li as linhas que escrevi, mas que não são minhas – nem nunca foram. Era uma antiga canção ou uns tantos versos que não rimavam de propósito. Não fazia questão da métrica, essa digna burocracia daqueles que já foram tantas vezes lidos. Mas estava ali algo diferente desta juventude que tenho agora. Era um cheiro de frutas recém-lavadas junto a um som que ninguém jamais parou para ouvir.

Percorri o tempo entre esses seis anos assim que me encontrei naquelas letras manuscritas. Viajei ao futuro. Um poeta tão bom deve estar ocupado com as grandes questões da humanidade, deve ter uma obra extensa e ter realizado textos inigualáveis. Mas em que porta devo bater para encontrá-lo? Provavelmente ele deve estar ocupado com seus amores, seus estudos ou com a música. Ah, sim, deve ser um grande amante também.

Deve ser aquele homem impecável, terno e colete, elegante, sentado no banco daquele parque esperando alguém. Pensando bem, seis anos é pouco para alguém passar de ingênuo a cavalheiro. São adjetivos que requerem mais tempo que isso. Deve ser aquele que usa jeans e camiseta, despreocupado ainda. Mas não, seria um tolo se em seis anos não tivesse deixado de ingenuidades para preocupações mais relevantes. Afinal, é um grande poeta, tenho certeza…

Há uma porta sem maçaneta feita de vidro e aço, com batentes de madeira e que fica no meio da parede. Lá, intangível, vejo um perfil parecido com aquele. Não é um cavalheiro ou alguém despreocupado. Não  um eu-lírico, heterônimo, pseudônimo ou qualquer hipocrisia de autor. Será eu?

Só que não é coisa minha ser este, não nos últimos anos.

E de repente me sento naquela ingenuidade, em toda aquela certeza, sentida impulsivamente e com as imagens todas que construí em tão poucas linhas.

Às sensações que se reconstruíram de fora para dentro, invadindo-me em turbilhão, devo agora a dificuldade de reconhecer este grande poeta, ao olhar no espelho.

Os músculos se vão contraindo. Mas a quem devo o sorriso?

 

Publicado em: às segunda-feira, 18 outubro, 2010 em 2:47  Comentários (2)  

Sob os canhões, o sujeito

Memórias de um Sobrevivente Inventado em uma Madrugada cujo sonho não viria entre um fechar e um abrir de olhos, porém através de uma janela e um caderno vivo. Os direitos autorais serão do pássaro que, dispondo do poste de luz da praça, canta a partir das três da manhã por não saber porque segue tão fraca a luz do “Sol”?

 - Onde está a poesia que serve a isto, que poeta, ante tal discrepância existencial, levantaria um lápis ao invés de se recolher por detrás dum escudo? Indagava-se o padre, em meio aos bombardeios em sua cidade, iniciados havia poucos dias. A razão humana e, no caso deste personagem, a fé também, está pronta a abdicar de suas frivolidades para dar conta de contingências. Não os entendemos porque já não os temos entre nós com tanta frequência; e se carecemos de poetas é porque somos violentados – de que benefício podemos dispor na literatura se o estupro está sempre entre o livro e a esquina? Houvesse mais poetas para atender essa demanda geométrica, estaríamos mais confortáveis para as reações adversas às nossas escolhas morais. Se há poetas, quer dizer que o tempo ainda nos frequenta pausadamente, envelhecemos com certa gratidão e gentilmente a nostalgia nos virá entre o Alzheimer e a Impotência – até que todas vontades não sejam mais que prazerosas lembranças – o que não perceberemos, então. Não temos poemas, temos o Diário Oficial “e isso deve bastar, caro Doutor”.

As placas, com seus versos anônimos tão modernistas e autoritários, podem ser lidas até do avesso que a significação é a mesma: não pare para ler, que a lei já vai por entre o fígado e o intestino até você, atenção à estrada, caro cadáver, pois ninguém te há de recolher!

Minhas condolências a todos.

Doe, por favor ou por dever, vosso sangue ou plasma, esperma, medula, saliva, tecidos, órgãos, vida, tempo, dinheiro, força de trabalho, faça como os médicos, todos cirurgiões-gerais d’alma que inventamos ter, prolongue o sofrimento por aí – ou desligue seus aparelhos.

Publicado em: às segunda-feira, 27 setembro, 2010 em 3:49  Comentários (1)  

Uma vez mais, o silêncio.

Já não faço mais da escrita-pública um confessionário interminável, nem uma contemplação interrogada por reflexões ociosas, carentes de um Outro inteligente. Atualmente não verbalizo certas coisas, principalmente profissionalmente. É meu silêncio que complicará, cada vez mais, a aplicação das políticas que me ofendem.

Como filósofo, estou algemado ao funcionário. E usarei os dois.

Jamais serei tal homem que, rebaixado à hierarquia, age de forma destrutiva. Se há hierarquia, denunciaremos hierarquicamente. Mil cairão sobre nossas cabeças, nenhum ao nosso lado, até que o nosso esteja acima de todos os corpos. Estaria na bíblia, não fosse ela tão corporativista.

Quando na universidade, essa sedentária e primária instituição de podres teses, não ouço o eco das grandes perguntas, apenas apontamentos das notas de rodapés, fico em silêncio.

E o faço porque não é o silêncio de quem está desiludido. É um silêncio deste cansaço, desta vontade de poder descansar no futuro. Estou acumulando forças que começam a se desentrincheirar.

Publicado em: às terça-feira, 21 setembro, 2010 em 2:19  Comentários (3)  

Milimetros Cartográficos, Kilometros Geográficos

 

 Impossível percorrer uma distância sem antes percorrer sua metade, depois a metade do restante e etc. Seguimos infinitamente até nos darmos conta que um passo refuta essa operação milimétrica. Os paradoxos cabem somente na linguagem, na conduta, nos códigos.

 Até nos darmos conta, contaremos os hiatos, vãos e buracos. Passaremos de um feriado a outro, afrouxaremos uma outra corda para criar um novo nó. Serraremos madeira para fabricar um serrote. Até quando deus queira, nós demoraremos a duvidar. É o mesmo atraso, aquele de sempre, entre o botão e a explosão, entre a promulgação e o cumprimento. 
Eis a constituição dos nossos problemas.

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Lamenta-se um tanto quando
 espaço/tempo significa kilometro/fuso-horário.

 

*abrindo espaço para uma campanha (iniciada por um respeitável físico veterano) para abolir o acento das pseudo-proparoxítonas Quilômetros, Milímetros etc. Além disso, escrevamos sob os padrões da metrologia conforme é o correto e  sugerido por ele:  Kilometro, Kilograma, etc.

Publicado em: às sábado, 10 julho, 2010 em 4:17  Comentários (2)  

Quão pobres ficarão as palavras!

Confesso que fiquei totalmente desorientado depois da conversa com este extraordinário indivíduo. Tenho receio de estar ainda em estado de contar o caso de tal modo que venha a afectar outras pessoas como aconteceu comigo. Provavelmente, esse efeito foi devido em grande parte à candura e ao tom amistoso com que um desconhecido se abriu ante mim.

Dizer da vida o quê? Egoísmo é sentir que,  num dezoito de dois-mil-e-dez de um calendário desnecessário, perde-se um futuro bom livro, um alento estético em meio à baderna informática inútil. Pode-se sentir tanta proximidade com um outro humanóide, ainda que distante, que pressentimos uma amizade oculta pela omissão do acaso?  É sobre Saramago que reflito, do qual descobri a arte quando começava o entardecer da carne que a materializava. Resta o silêncio. E já não está.

Encontrei-o na praça e estou ainda a vê-lo nitidamente enquanto escrevo. Era bastante abaixo da estatura média e um pouco curvado, passeando com vivacidade e agarrando a bengala atrás das costas. Usava um chapéu de coco, um casaco leve de Verão e umas calças escuras listradas. Não sei porquê, tomei-o por um inglês. Tanto podia ter trinta anos como cinquenta. O seu rosto estava bem barbeado, com um nariz grosso e uns olhos negros cansados; em redor da sua boca brincava constantemente um sorriso inexplicável e, de certo modo, simples. Mas, de vez em quando, olhava em volta inquieto, depois punha os olhos no chão, murmurava algumas palavras para si, sacudia a cabeça e caía de novo no mesmo sorriso. Deste modo caminhava na praça, perseverante, de um lado para o outro.

[Desilusão - Thomas Mann]

 

Pensar, Pensar

Junho 18, 2010 por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

Publicado em: às domingo, 20 junho, 2010 em 3:28  Comentários (3)  

Libertários

É preciso deflagar a bandeira, mesmo que ela seja apenas um verso curto num papel gasto. Se há uma palavra de ordem, é preciso haver a de resistência.

Indivíduos. Somos pós-modernos. Herdamos  da história recente o epíteto de indivíduos.  Recusamos a massa. O coletivo é antiquado. Mas não somos egoístas. A internet é um fenômeno digno de nossa época, o avaliem como quiserem: bom, ruim ou uma peça neutra sujeita às ideologias. Um monte de indivíduos conectados. As partes, creio, soam maiores que o todo. Pequenos poderes: milhões de páginas de opinião diárias, informação compartilhada, gratuita até, corrigida segundo a segundo.  A época é de dialética pura. A dominação se faz por medida provisória. A resistência, que vinha por meio de habeas-corpus quando o que atacavam era  o  corpo,  agora precisa de peso na opinião pública – desta vez mundial. A censura que impede veiculações impressas ou televisivas já não sabe como concentrar poder quando há uma rede mundial.  Blogueira em Cuba ou documentaristas na Birmânia, não importa. Se houver quem saiba do outro lado da tela, o constrangimento diante do mundo pára até as populações de potências nucleares. Porém é necessário que façamos pesar nossos corpos individuais. Já ocorrem crimes virtuais desde o início. Não precisamos de revoluções como as que nos fizeram girar lentamente 360°. Não  basta escolher direita ou esquerda e marchar da mesma maneira com as duas pernas.  Resistência não é só uma palavra.

Eu aceitaria mesmo gritar até Ordem e Progresso como um positivista, se nisso houvesse algum valor prático para nossos dias.

 

Publicado em: às sexta-feira, 7 maio, 2010 em 21:50  Comentários (1)  
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