Gato Metafísico

O gato ali descansa. Despreocupado repousa. Seus olhos fechados encerram em si todo o mundo, apenas quando novamente abri-los é que o tempo continuará a correr, então será hora do almoço. Nada põe em dúvida a condição do gato. A única coisa de que ele duvida é se realmente lhe sou necessário.

E só julgo qu’estou frente a um “gato” porque me julgo “homem”, disse um putrefato filósofo francês.

Encontrei algum abrigo na inquietação. Agora preciso movê-la comigo. Como posso arrastá-la para uma existência tão efêmera?

 

Publicado em:  on Quinta-feira, 10 Dezembro, 2009 at 2:39 Comentários (1)

Ilo Krugli

Apenas mais um cliente que gosta de Plínio Marcos e Gorki?

Sabe, eu me dedicaria a escrever a biografia deste bom senhor de setenta anos que deixou meu dia menos cansativo (novamente). Sempre há uma nova história a contar. E é bom em narrar, esse ator/artista plástico/ dramaturgo/ escritor/ etc.! Ouço-o atentamente quando vem comprar um livro e  ele também assim me ouve, é uma boa troca. Esquece-se que o propósito da visita era comercial. Livros  não chegam a ser objetos de comércio se você os trata do jeito certo. Quando conta suas breves histórias tão sinceramente, penso em como será ter a certeza de ter vivido coisas extraordinárias até agora e partir ainda para o desconhecido que espreita os palcos por aí.

“…hoje tal data, nessa cidade morreram vinte e cinco mil pessoas, também caíram das arvores oitocentas mil folhas e outras tantas mil flores [...] mas não se preocupem, pois vão nascer mais crianças, mais folhas, mais flores…”.

Fonte: http://www.cbtij.org.br/arquivo_aberto/entrevistas/ilokrugli.htm

 

Publicado em:  on Sábado, 28 Novembro, 2009 at 1:45 Comentários (1)

O que a estante tem a me dizer

Abro a porta do meu quarto e já ouço vozes irônicas, dramáticas, resolutas, todas de certa maneira gritando ou sussurando. É sempre “Leia-me” o que elas dizem, implicitamente sugerindo “Decifra-me ou devoro-te”, porque assim são os livros. E cada vez que, aflito, inicio um livro que tem mais que quatrocentas páginas, logo me alivio co’a curiosidade pela próxima página. Tenho descoberto muito em pouco tempo, sem a pressa das leituras obrigatórias ou a idiotice óbvia das manchetes jornalísticas (ainda mais idiotas quando acompanhadas de fotos).

Estou agora mesmo me dedicando a uma resposta que encontrei num livro e é confortável isso, porque a resposta não é nada sozinha, sem alguém que dela se aproprie.

 

Publicado em:  on Quarta-feira, 4 Novembro, 2009 at 0:50 Comentários (3)

Combustão Espontânea para Você!

Fôssemos um país desses mais cavalheirescos como o Japão, talvez sequer tivéssemos palavras de baixo calão em nosso idioma e pudéssemos gritar no trânsito a frase acima;

imaginei isso hoje.

Voltei a sofrer insônias repentinas. Ontem fiquei até com raiva por isso. Estou ansioso para nada. E não me acostumo a sentimentos como esse. Ansiedade senti poucas vezes e a cada vez me corrói mais.

Coisa estúpida.

Publicado em:  on Sábado, 24 Outubro, 2009 at 1:09 Comentários (2)

Proporções

Essas infames linhas paralelas que sigo desenhando intermitentemente!

O qu’eu poderia (d)escrever aqui que sugerisse algo desconhecido a qualquer desavisado que acessasse isto num futuro possível? Por que, afinal, procuramos produzir novidades?  Ando indignado em ver que estamos (nós, uns poucos) limitados a uns poucos símbolos (porque é necessário que “eles”, os muitos, entendam) e ser obrigado a produzir obras semi-novas.

Enquanto falo essas bobagens, debato-me entre plagiar meus pensamentos e reler o dos outros.

A vida é tédio – e isso só chatearia a quem não tivesse os sentidos.

Publicado em:  on Sexta-Feira, 23 Outubro, 2009 at 0:42 Deixe um comentário

“Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia”

“Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!”

Será preciso retermos os fatos por longos minutos, que parecerão horas aos mais científicos. Aqui, enquanto em pé conseguirmos nos manter, não permitamos misturar os discursos co’as realidades que temos; ao nos valermos da retórica, não nos entregamos jamais a comentar os revezes, solicita-se, como sempre, que ao falarmos aos outros nos valhamos de profundo otimismo. A razão, no entanto, pede muito mais que o suportável pelo emocional (este que nos faz ausentar de tudo e todos), espalha em nosso rosto as misérias, atinge-nos com decadências das mais sujas e, o quanto antes, busca nos informar dos acontecidos todos e por nós mesmos devemos saber o prejuízo ou lucro – é falha nossa que não consigamos avaliar sobre estes se esta nossa fria e calculista parte nos traz uma boa ou má notícia (um curto benefício tantas vezes resultou num malefício maior). Os discursos, tão absurdamente egoístas em sua produção e coletivos em sua aplicação, não nos remetem à realidade, nem o devem fazer, pois eis a sua função: iludir. Palavras serão sempre uma obra à parte! Saibamos que, apesar de todo apoio que possamos ter,  somos partes que desconstituem o todo e que estaremos, ainda que aparados por muletas, sós.

Ou não.

Publicado em:  on Domingo, 18 Outubro, 2009 at 17:21 Comentários (2)

“Muito Prazer, meu nome é Otário”

É preciso estar entorpecido com fanatismos, praticar a repressão sexual, consumir substâncias tóxicas que causem dependência química e deficiência psíquica – eu não faria de tudo para ser aceito na família, definitivamente não me moveria sequer um centímetro a esse tipo de decadência.

Convivo desde cedo com gente que estende a mão para quem tem problemas, não quer ajuda e ainda faz o possível para ferrar os outros;  mas para quem honestamente pede - nem que seja em retribuição de atitudes passadas – um simples favor, nada além de ofensas [nunca vem um simples não].

 

Publicado em:  on Domingo, 27 Setembro, 2009 at 23:56 Comentários (4)

Expectativa de Vida

Afegãos não podem pretender chegar aos 41.

É estatística e não um fato. Mas não será a eles um fardo que  divulguem isso assim, como se fosse o que esperam que lhes aconteça?

Espera-se, mesmo, que a véspera não seja coisa alguma, senão coisa-antes de um futuro incerto. Então o antes é nada. É só a antessala para o depois e, caso não haja algo depois, fizemos o cavalheirismo de aguardar que nada viesse. Diria num lugar-comum que o que importa, portanto, é o agora. Mas desconheço essas formas do tempo, sejam três ou mais (porque ainda caberia enfiar a efemeridade). O qu’estou a dizer é que salva vidas não ficar numa véspera, a ansiedade corrói e não desejo esperar coisa alguma.

P.S.: Eu praticamente não ganho muita coisa por ganhar a aposta do IBGE e viver mais que 72 anos. Porque viveria apenas 7, caso eu não fique desempregado até lá, com um salário de fome. Eis porque nos mentem numericamente, não é agradável argumentar com números – e tenho sempre os bur(r)ocratas, quando pergunto em caracteres, respondendo-me em algarismos.

Publicado em:  on Segunda-feira, 21 Setembro, 2009 at 4:16 Comentários (4)

Sobre Porcos e Astrônomos

É preciso viver como um porco, sem poder voltar os olhos para o céu e confinado entre cercas, para entender como se faz para voltar a ser humano. Porém, como todo retorno, exige um desvio do cansaço da viagem, normalmente causado pelas distrações que a estrada vem oferecer.

Eu não investigo ou argumento para provar qu’estou certo ou errado. Faço-o pelo prazer de encontrar respostas novas – que por vezes descubro frágeis ou totalmente erradas. Não quero ter razão ou certeza, quero descobrir quem não a tem. É vontade arrogante embaraçar e conduzir ao constrangimento de estar errado – é uma grande vontade, pois a tenho mesmo que contra mim.

 

Publicado em:  on Sexta-Feira, 18 Setembro, 2009 at 4:31 Deixe um comentário

Miseráveis que somos

Semeamos monstruosidades e inventamos a cada dia novas maneiras de desgraçar nosso progresso; nossas quimeras, ainda que inocentes, tornam-se escândalos que os anjos mais malditos não poderiam suportar.

Lateja minha cabeça e ardem meus olhos. O que se pode exigir de um corpo em crise? Descanso é plausível, mas não permitido. O repouso necessário só é concedido aos que já estão doentes, a ponto de se receber ordem médica para tal; ou seja, é preciso que o prejuízo previsto já tenha sido causado.

Eis-me prejudicado.

Publicado em:  on Sábado, 12 Setembro, 2009 at 3:26 Comentários (1)