O Farfalhar dos Lagartos

“Evitemos as paixões tristes e vivamos com alegria para ter o máximo de nossa potência; fugir da resignação, da má-consciência, da culpa e de todos os afectos tristes que padres, juízes e psicanalistas exploram”

Um sonho desses que levamos pelo dia, a pensá-lo como realidade só pra ser mais bonito. Textura, som, cor. Todo o tato que a mente pode concretizar – porque se sonhamos muito com algo que desejamos mas não é, não é uma simulação, mas uma concretização da realidade quista; o sonho, como eu o entendo, é a pura literatura (completa para o autor e inacessível aos impossíveis leitores, neste caso). Gostaria qu’existisse previsão do futuro, para que meu sonho o fosse, porém ainda qu’essa possibilidade seja boa para o caso em questão, seria chato que meus pesadelos todos também representassem o futuro. Seria o martírio de Cassandra.

Admiro-me mais e mais, não cansando, por vezes, de investigar a potencialidade humana.

Eu quero fortalecer meu desejo – realizá-lo seria lhe pôr um fim.

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Published in: on domingo, 23 novembro, 2008 at 5:17  Deixe um comentário  

“O mundo tem revelado uma exagerada tendência para a ação”

Um relógio é um objeto caro e bobo.

Camus, Albert. A Peste.

Se há coisas com as quais não me entendo bem são as distâncias. Claro que todas estão disponíveis ao percorrimento, porém há aquelas que são verticais, feitas justamente para que não lhes haja contraposição. São os muros propriamente ditos. Esclareço: não falo de muros literalmente – para que não haja demais enganos, falo dos muros políticos. Poderia me referir ao muro de Berlim, à fronteira EUA-México, aos muros dos guetos, extintos ou não, que foram erguidos por todo o mundo. Não, nada disso. Escolho, então, dizer algo sobre as relações políticas em sua simples constituição: duas pessoas. Nada tenho contra muros ou cercas-vivas dessas baixas, que servem para dizer “Ei, venha me visitar” ou para dizer “bom dia” à distância, no dia-a-dia corrido, sem que se pareça dessa maneira mal-educado o emissor desse cumprimento corriqueiro. O caso é que tenho visto por aí muito campo minado e arame farpado antes de um muro invisível com altitude por volta dumas dezenas de metros. Para que tanta proteção se a vida é ínfima? Que engenharia contemporânea é essa, que constrói o indivíduo e não o permite disponibilidade para dialogar com as janelas vizinhas? Exemplo infeliz esse último, já que não falo literalmente – perdoem-me os engenheiros. Onde está a humanidade que conheci nos balanços dos parques que dizia “vamos brincar?” sem perguntar nomes, bastando se apresentar com “Eu sou a raposa, você quer ser o cachorro?” (ainda que custasse uma briga vez ou outra na escolha da brincadeira entre animais, personagens da fantasia e papéis dum lar imaginário em cima da árvore ou embaixo do escorregador).  E mesmo a partida era simples – não importava que houvesse ali uma ligeira certeza, mesmo infantil, de que não haveria outro cruzamento dessas vidas tão nuas de experiências.

Sinto falta da simplicidade que nos deixa ofegantes, mas não cansa.

E mantenho o silêncio, cujo custo é este sítio virtual.

Quid prodest?

 

Published in: on quarta-feira, 19 novembro, 2008 at 3:33  Deixe um comentário  

“…creio que minha verdadeira vocação é procurar o que valha a pena ser”

Meu cavalo está cansado e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula ou ponto final.

 

Devastador é o efeito d’alguma reflexão fugaz que nos atinja no calçamento de uma grande avenida duma metrópole como esta em que não me encaixo porém me encontro. O pensamento que nos invade é desumano – qualquer um desse tipo dos que nos invadem o é. Não há chance para escapar e quanto mais se foge dele, é por ele qu’estamos sendo levados. Fugir daquilo qu’está em nós é uma ilusão da qual muitos sofremos, é isso que leva a lotar as igrejas e romarias, pondo todos em genuflexório, castigando os joelhos pelo que se originou no cérebro. E já não há castigo maior que o pensamento com que somos obrigados a conviver, maximizá-lo com tentativas inúteis de detê-lo é o verdadeiro erro. Melhor é vivenciá-lo até que se esgote sua capacidade.

Prefiro o deixar comigo este pensamento, no entanto, entendam aqui como é sofrê-lo.

 

*Monteiro Lobato citado no topo disto.

 

Published in: on domingo, 16 novembro, 2008 at 16:07  Comments (2)  

O Canário Carniceiro

Eu andava pela rua e deparei-me com um canário devorando um corvo morto. A cena naturalmente ilógica, pois até onde vimos canários não comem aves ou outros animais, quanto mais carniça, pareceu-me de tal maneira aterrorizante que não me sai da mente. Claro está que, não fosse um sonho, não me teria sido tão impressionante. O que trama meu cérebro quando não estou, para imaginar sozinho tamanho absurdo. Se há metáforas por trás, só posso pensar nas piores possíveis. Um canário faminto a esse ponto? Quiçá cruel! O que será de mim, nestes pensamentos que vieram ser meu pior devaneio durante meu sono?

 Atentamente, notava os movimentos em cada canto, aquele patamar calculadamente iluminado para deixar o foco em cada mentiroso era um altar de sacrifícios. O cordeiro que então sangrava sem parar era eu. Que deus é esse, que não pede nem dá, mas que ainda assim merece que lhe sangrem de uma vez só uma centena de gravatas, paletós, escarpins e chapéus-que-já-não-se-usam-mas-que-ainda-nos-pesam-socialmente? Esqueçam-se os celulares e a vida de fora, isso é um pedido feito antes dos três sinais que fazem lembrar a monarquia que adentrava com prioridade essa metarrealidade, há séculos. Ninguém nos diz quando irá acabar, é deseducado olhar o relógio.

Ironicamente, depois de nos distrair da realidade esses palhaços, menestréis, mentirosos, esfregam-na em nossa face totalmente exposta na escuridão da excessivamente permeável “quarta parede” E AINDA fingem que não é conosco que falam, desviam o olhar para um horizonte inventado ou miram em um só de nós, escolhido para ser todos que são invisivelmente acusados. E o absurdo que fazem ultimamente, de nos forçar a trabalhar por eles, alegando que é parte do grande espetáculo que não-é-sobre-nós…

É um êxtase revoltante, envolvente, essa instituição mutante, o teatro.

Published in: on quinta-feira, 13 novembro, 2008 at 1:12  Comments (3)  

Ser Leviano

A vida humana só acontece uma vez, e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez.

– Milan Kundera

 

Entre as vontades todas que estão impregnadas em meus dias, verifico o desejo de imaginar as maneiras de se assassinar alguém. Não considero psicopatia porque esse desejo de imaginar impõe uma não-realização e, além do que, está atrelado à imagem de alguns seres que em verdade não mereciam viver. Esse texto até poderia soar com ameaça, acaso as pessoas a que me refiro tivessem alguma consciência da minha fértil imaginação. Mas é pelo que considero que lhes falta da porcentagem mínima aceitável de consciência para qualquer questão que imagino seu homicídio doloso com requintes de crueldade.

Tem muita gente para decidir sobre minha vida. Parece até que a primeira decisão a se tomar seria a nomeação das pastas e dos devidos secretários a elas destinadas, para que cada um fique em seu adequado setor. É claro que a pasta “Carreira Profissional” estaria lotada de sugestões e nenhuma solução.

A meu ver, as boas decisões restam aos que souberem morrer.

 

Published in: on segunda-feira, 10 novembro, 2008 at 9:24  Comments (2)  

A Morte Feliz

– Acredite: não há grandes dores, nem grandes arrependimentos, nem grandes recordações. Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas, e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para os desesperos sem razão que se apoderam de nós.

Albert Camus [1913-1960]

 Precisamos justificar a nós mesmos, antes de justificar a todos, a que viemos – e não é simples, já que “oficialmente” a nada viemos, para nada nos dispomos ou em nada somos úteis. Essa tão-necessária justificação nos mantém a “vontade de”. E o mundo parece que deseja isso coletivamente, ou ao menos gostaria de saber a sensação disto acontecer em conjunto, sem combinar previamente.

Seremos sempre essa potência nunca realizada?

Quando nos abandonaremos ao existir irracional, tão artístico quanto realista?

φ

 

Published in: on quinta-feira, 6 novembro, 2008 at 4:09  Comments (2)  

“A rota segue ignota entre os guizos e os meses”

 

Querem qu’eu saiba o óbvio, porém nada encontrei em enciclopédias e dicionários, tanto nos encadernados e palpáveis quanto nos virtuais. O qu’eu sou obrigado a saber sobre as coisas? E sobre mim?

Que regra espantosa é essa, que me dita “óbvio que é preciso ser feliz”?

Porque é óbvio que “dois e dois são quatro”?

Quanta ciência é preciso concentrar para fundar esse óbvio que o populacho tanto propaga, feito um cheiro nauseante?

Published in: on terça-feira, 4 novembro, 2008 at 2:22  Deixe um comentário  

Dia de finados

Nascer em dia de finados não é coisa rara, garanto que uns já fizeram isso aos montes. Pode-se rir da ironia semântica, mas nada além faz graça. Não sei que me levou a criar este novo espaço, pois já conto com outros três, algum dos quais estou pra abandonar. Deve ser como mudar de casa, ou qualquer outra renovação. Por enquanto vou deixando disponível este novo local, que trato como uma casa de veraneio ou coisa que o valha.

Ainda há leveza nestas páginas por escrever, por isso abandono às reticências o qu’eu ainda tenho pra dizer e não quero organizar nessa ordem por vezes desagradável das letras…

Published in: on domingo, 2 novembro, 2008 at 5:45  Comments (1)