Compreendendo Quantidades

Algum trecho a ser preenchido, cujo espaço vago ainda está para ser.

Contas a prestar, contas a pagar, dias a contar, contagens todas para quaisquer coisas. Os contadores todos não dão conta. É preciso que nós lhes diminuamos o trabalho. Contamos até 31, 30, às vezes 29 e mais raramente 28, somamos 365, dividimos por 24, depois por 60 e não queremos numerar quantos números se perderam. Multiplicamos por todos esses números os acontecimentos incontáveis e obtemos uma infinita subjetividade. Não, não nos enganemos, nada de novo pela frente – é tempo de recriar.

Anúncios
Published in: on domingo, 28 dezembro, 2008 at 23:30  Comments (2)  

Clandestino

Não há, portanto, nada de odioso no procedimento de um homem que, de boa-fé, pede provas da existência de um ser desconhecido que lhe é anunciado. Todo o aspecto odioso estaria do lado dos partidários dessa existência se, como única resposta, ordenassem que o curioso fosse enviado para o suplício.

Giordano Bruno Redivivo ou Tratado dos Erros Populares

(anônimo, século XVIII)

Como tem andado tudo tão rápido à minha volta e nem sempre tão agradavelmente, não tenho cumprido meus impulsos de escritor – porém não abandonei de todo, porque tenho lido e todo leitor escreve em si novas linhas co’as linhas dos outros, e nem estas últimas nem as anteriores são são retas como as das ruas nem tortas como se diz que são as de deus. Levemos a cabo, pois, a tarefa que tanto necessito cumprir:

Um paciente do qual tiraram à força e sem motivo aparente uma parte do cérebro havia dado entrada no hospital. Cirurgia complicada, decisões difíceis, pressa e cansaço dos mecânicos que vestiam máscaras, jalecos brancos e roupas soltas azuis e verdes. Os ditos médicos só não consertaram os pensamentos do paciente, que acabou sem a memória. Fico a pensar, agora que repasso essa história para vocês e para mim mesmo, que rosto se sentirá tendo alguém que se vê pela primeira vez – diferente de uma criança ou de um animal que descobre a invenção do espelho, este já consta com um cérebro capaz de analisar a situação de forma complexa e concreta.

 

Published in: on segunda-feira, 22 dezembro, 2008 at 0:02  Deixe um comentário  

Completa Catástrofe

“O Surrealismo sou eu”

Salvador Dalí, definindo o respectivo movimento aos nova-iorquinos.

Há que se confessar nossas fraquezas, nossos odores, cicatrizes e más-formações – mas jamais a outro ser humano, quer seja no confessionário, no tribunal ou no espelho. Para isso é que inventamos deuses, para encurtar todo esse processo; num passo só eles já sabem o que somos e fizemos, perdoando-nos. É claro que só é possível o perdão onde há culpa, pois inventamos antes a culpa e, consecutivamente, os deuses (delegamos poderes a eles, mas não lhes demos livre-arbítrio, porque não o tínhamos pra dar).

Ouço animais zunindo ou sussurando, transitando a passos arrastados, pesa-lhes nas pernas o que não pesa sobre o pescoço e o que não articulam de idéias na cabeça também não articulam nos joelhos. Eis meu dia, infern’orquestra, coral agudo de desajustados, mantido pelo ritmo das solas em atrito co’ solo acarpetado de um porão abafado pelo hálito desses bípedes dormentes. Não estão mortos, estão em coma. Bem disse um anônimo oitocentista: “O ser humano só poderia ser chamado de racional depois de ter vivido”. Somos fruto da nossa experiência – que imensa tautologia existencial! E ainda encontro quem me pergunte como é que posso me conformar co’a minha falta de crença num sentido para a vida!

 

Published in: on segunda-feira, 15 dezembro, 2008 at 3:51  Comments (3)  

Mosaico de Idéias

 

A definição das palavras é a verdadeira pedra de toque das idéias. Quereis avaliar com justeza a idéia do pecado original? Defini o pecado original. O que significa, com efeito, essa palavra? Um crime cometido antes do nascimento. Um feto, um embrião, um esperma culpado de lesa-divindade: que absurdo! O verdadeiro pecado original dos homens é a estupidez.

Giuseppe Antonio Giachimo Cerutti, Breviário Filosófico ou História do Judaísmo, do Cristianismo e do Deísmo em 33 versos (1791)

É preciso pensar poeticamente para não enlouquecer nesse mundo. Sinto-me um depravado quando procuro coerência – o que é essa busca, senão a tentativa de expôr o nu das contradições?

Damas e cavalheiros, eis o resultado e a conclusão de séculos de acúmulo inútil de conhecimentos inventados: Descobrimos que a Arte e não a razão deve tomar o lugar de obra humana. Tratados morais, leis físicas, cálculos e linguagens pra quê?

  Tomemos nas mãos o mundo e o experimentemos;

 eis a razão aplicada com eficácia!

Published in: on sábado, 13 dezembro, 2008 at 2:11  Comments (1)  

Refúgio Superficial

Honrado  co’a Menção Especial I, que me foi dada por este texto pela Academia Irajaense de Letras e Artes, formada por Excelentíssimos veteranos que batalham pela cultura, ainda que boicotados pelos que detêm o poder.

Eu sinto. Sinto muita coisa além-eu. Pareço com várias coisas análogas a coisa nenhuma. Que fiz eu das dores que tive e causei? – as primeiras não ficaram na memória e estas últimas nunca foram minhas, desde sua origem até as conseqüências que não abracei! Vejo distâncias que existem só até a linha do horizonte espremida entre os prédios que não chegam a arranhar os céus. Percorremos, andando ou deitados, esses intervalos de espaço que dividimos em metros, quilômetros e saudades. A textura que chega a meus pés é a da areia fofa, o sabor que chega ao paladar é de qualquer doçura derretendo, sem que se tenha que esperar além da doce sensação remanescente. E nada é tão doce quanto a lembrança do calçado contra o asfalto, durante alguma garoa que levou a um beijo ou um sorriso que fazia um som engraçado, depois se abria numa gargalhada confortável de amizade começada sem hora pra acabar. Gostaria de me arrepender das escolhas que não são minhas mas, como as dores que causei, não tenho como abraçá-las. Eu entendi que preciso extrapolar minha vida enquanto a abandono. Mudanças surgem quando percebemos uma razão para existir na contradição recém-constatada. A minha não é recente. Aconteceram coisas demais, intermitentemente, num intervalo de tempo, numa dessas divisões em horas, dias e acontecimentos. Talvez eu vá até logo ali só para desistir em outro lugar, talvez eu resista em mim, noutro-eu.

φ

 

Published in: on sexta-feira, 12 dezembro, 2008 at 2:27  Comments (4)  

“…que tem a cabeça não a prémio, mas a prazo…”

Os pinheiros acenam, mas o céu não lhes responde.

Entre melhorias em minhas formas de observar a vida, encontro os fatos, tão desnecessários, dos outros. Não chega às vistas comuns, dessas que usamos para buscar informações em dicionários, todas as cores de quem se aproxima sem saber porquê. Vejo então a interação que ocorre por meio de nada para chegar a lugar algum – como perguntar “que horas são” só pra tomar fôlego para puxar assunto. A que vamos, afinal? Que nau é essa, que erra a medida da circunferência terrestre e espera a Ásia mas encontra chocolate? Perdoem minha falta de bom senso co’as perguntas que produzo apenas para correr o texto, que péssimos descobridores seríamos se não encontrássemos nenhuma surpresa pelo caminho!

Published in: on sábado, 6 dezembro, 2008 at 2:45  Comments (3)  

Neste silêncio escrevo meu grito

Foi bonita a festa, pá Fiquei contente Ainda guardo renitente Um velho cravo para mim Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram uma semente N’algum canto de jardim Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei, também, como é preciso, Navegar, navegar Canta primavera, pá Cá estou carente manda novamente Algum cheirinho de alecrim

 

[Buarque, Chico – Tanto mar]

 

 

Neste silêncio escrevo meu grito, ainda que seja de um vencido. Vale-se da voz que foi calada este ridículo que me ponho a viver. Oriento-me dum cansaço desabrigado, que não chega a ser desumano porque é da animalidade humana fabricar desabrigados. Não distingo meus medos de mim, vitórias não as tive porque as considero parte da morte, da qual ainda vou fabricando a forma passo a passo, como uma senhora que desenha seu bordado na varanda de São Carlos – que é um local como tantos, especial para mim como poucos.

Decidi por mim que, assim que haja dinheiro e tempo, condição assaz rara para muitos, vou-me embora para lá, com este “lá” refiro-me à cidade supracitada, para visitar a morte que está por vir, de minha bisavó.

 

Published in: on terça-feira, 2 dezembro, 2008 at 1:44  Comments (2)