Um Dia Explicitamente Impreciso

Acontece que, se não há ninguém pra ver, nem mesmo o “sujeito contemporâneo” existe. Parece que há certa necessidade de platéia por aí.

A coisa toda foi estourando, ao observador não-imparcial que caminhava desatentamente, somavam-se os ladrilhos, estes às pessoas e estas à poeira, foi-se a brincadeira toda numa grande e exagerada obra pública, que, estendida por vários quilômetros, desviava a todos, que involuntariamente cediam, por exaustão ou por preguiça de resistir. Desatei-me desse nó apenas quando visualizei uma mulher absurdamente grávida. Sim, ab-sur-da-men-te! Como podia ela caminhar ainda, se adiante havia um mundo inteiro em potência e tamanho?

Quando  comprovarão cientificamente que a ciência é um discurso válido?

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Published in: on sábado, 21 fevereiro, 2009 at 1:53  Comments (3)  

Ri de todo mestre que não riu de si

“Não chore ainda não, que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
É um samba tão imenso que eu às vezes penso
Que o próprio tempo vai parar pra ouvir”

Olê, Olá – Chico Buarque

Finalmente adquiridos ambos os volumes da Contra-História da Filosofia, de Michel Onfray, estou plenamente munido de provas para enfrentar os males causados por vinte e cinco séculos de comentariologia e consensos que envolveram sempre a humanidade – que culminaram numa implosão total de qualquer utilidade do conhecimento, dentro dos livros didáticos escolares. Reinventemos o conhecimento e suas utilidades.

Como escrevi certa vez, há que sermos inimigos da humanidade,  justamente para não invenená-la. Destruir para recriar.

Published in: on segunda-feira, 16 fevereiro, 2009 at 0:44  Comments (1)  

“Escravizara-se ao intelecto…”

 

As aulas haviam terminado. Bandos de libertados transbordavam pelo pátio cimentado e para fora do portão, dividiam-se e precipitavam-se para a direita e para a esquerda.

[Thomas Mann – Tonio Kröger, página I].

É como que um prazer não estar melancólio ao levantar para ir ao trabalho, depois de muito renunciar a todo tipo de empreendimentos e contratações; vejo-me como quem escolheu uma ocupação e não como alguém que está obrigado a ir a qualquer lugar, seja qual for o motivo – invariavelmente seria dinheiro o que me impulsiona, obviamente o é (no entanto não é o que busco, este é apenas o meio, o modo de conseguir alguma meta que permanece oculta).

Published in: on quarta-feira, 11 fevereiro, 2009 at 23:29  Comments (1)  

Veneza ou Além-Mar

 

Não há nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista – que se encontram e se observam diariamente, ou mesmo a toda hora, sem um cumprimento, sem uma palavra, forçadas a manter uma aparente indiferença de desconhecidos, por imposição dos costumes, ou por capricho pessoal. Há entre elas inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria de uma necessidade insatisfeita, artificialmente reprimida, de travar conhecimento e comunicar-se, e também, sobretudo, uma espécie de respeito carregado de tensão. Pois o ser humano ama e respeita seu semelhante enquanto não tem condições de julgá-lo, e o desejo é produto de um conhecimento imperfeito

[Thomas Mann – Morte em Veneza]

E que imenso fascínio pelo casual-cotidiano de todos os dias que senti impresso na página oitenta, donde retirei este trecho!

Tenho mantido o foco.

No entanto, preocupo-me constantemente co’ fato d’eu não distinguir sonhos agradáveis dos ditos pesadelos. Preocupo-me pois meu cérebro é que os produz e já não os consigo julgar, esses delírios – não me parece esta uma questão de ponto de vista, já que sou eu quem os sonha. Se existe algo a ser decifrado nos sonhos, são as imagens que inventamos acerca das coisas que nos importam.

Published in: on sábado, 7 fevereiro, 2009 at 1:02  Comments (7)  

Vou-me embora para Macondo

Vou partir para Macondo, onde não há rei que não desista e tenho a miséria que prospera desenfreada, na cama em que não dormirei, num ciclo solitário que, no que depender de mim, durará cem anos ou mais. Vou-me embora para lá, sofrer de alguma desventura, numa existência escrita em sânscrito  surpreendente. E, estando lá, se houver vontade de me matar durante insônia, arrebatamento ou tristeza, sei que me chegará a hora, por um pelotão ou pelas formigas, que me virão “socorrer”, acabando por tomar coragem, de um jeito que nunca a tive.

A arte tem uma potência perigosa, tão fortemente corrosiva que chego a pensar que não foi a bebida ou os entorpecentes que causaram tantas falências (múltiplas de órgãos e/ou financeiras) dos artistas que me atravessam através da estante de livros. Um fardo estranhamente prazeroso, zelar pela arte.

 

Published in: on domingo, 1 fevereiro, 2009 at 16:18  Comments (3)