“Se o senhor açambarcasse o mercado de trigo, que efeito causaria na poesia alemã?”

“O indivíduo não tem o direito de praticar a medicina se nada sabe sobre o corpo humano, mas o financista tem o direito de atuar livremente sem nenhum conhecimento sobre os múltiplos efeitos de suas atividades, salvo a movimentação de sua conta bancária. Como seria agradável um mundo em que não pudesse operar na bolsa quem não tivesse passado em provas de economia e poesia grega, e onde os políticos fossem obrigados a ter sólidos conhecimentos de história e romance moderno! Imagine um magnata confrontado com a questão […]”

Incrível como os sonhos também podem ser experiências válidas. Há vários meses tenho sentido o amargo, o doce e o agridoce de todo tipo de cenas noturnas, durante a dormida entre um dia de trabalho e outro. O que tenho experienciado (se se pode assim dizer) não cabe criticar, porque aparentemente para os outros não ocorreu. Parte da minha tristeza parte dos sonhos, sei bem – como podem querer essas alucinações, essas fugas imaginativas, serem tão reais?

Salva de palmas para a senhorita do setor de Recursos Humanos da senzala que disse, sobre a crise: “Estou tentando abolir essa palavra”. Faço votos para que os jornais a imitem.

Crise.

Published in: on quarta-feira, 25 março, 2009 at 4:28  Comments (3)  

Renuis tu quod jubet alter

Não adotamos todo este parágrafo; mas, como há algumas verdades, não julgamos dever omiti-lo e não nos encarregamos de justificar o que pode haver nele de pouco comedido e demasiado duro.

Seria aliviante acordar, um dia e por apenas um, e ser transportado daqui. Porém enquanto penso nisso, sinto pesar pelos muitos que ficariam sem nunca saber como é o outro lugar, que imagino diferente deste e que só por isso já me traria benefícios – confusamente, fico considerando comigo mesmo se todos se beneficiariam.

A quantas coisas sobrevivo diariamente e quantas me permito pensar, a ponto de estar aflito por resignar-me a aturá-las?

Published in: on domingo, 22 março, 2009 at 4:29  Comments (4)  

0,2 % de Indígenas

 N’algum país, entre o Atlântico e o Pacífico.

Agora se justifica a greve e o grito, mas não a crise e o prédio desocupado. Desculpem-me desconsiderar o que quer que tenha sido “provado”, mas não dou crédito suficiente a quem tem mais de sessenta anos e deixou tudo chegar a isto. Não adianta, de forma alguma, cada um fazer a sua parte. Não é pelo movimento individual de cada peça que vemos o relógio andar – é o movimento do conjunto que traz a eficácia.

Senhores, os fins não justificam os meios.

Ditadura do proletariado ainda é ditadura.

Não se enganem. Não me enganem.

Published in: on sexta-feira, 20 março, 2009 at 3:15  Deixe um comentário  

Que anjo levas oculto na tua face?

O destino do homem como se assemelha ao vento A alma do homem que se assemelha à água Por que tanto tormento, tanta aflição? Morrer é só não ser visto É preciso abraçar a volúpia Fartar-se de prazeres Não ter medo da morte

Goethe

É preciso descrer um pouco mais, sustentar a dúvida erguida por cada cético no passado ou cada ser humano perseguido ou queimado. Vale mesmo a pena sacrificar vidas em prol da tradição? Condenar crianças aos traumas e temores, à uma sexualidade problemática, aos prazeres escondidos – desde o chocolate até o nudismo!

Caros senhores, vocês nos custam caro! Deixem seus hábitos e chapéus de militares, bispos e reis. Saibam que são peças gastas do xadrez. Sentem-se no chão e cedam-nos vossas cadeiras. Quebrem teu cetro, esse braço tão ridiculamente longo e rígido.

 

Published in: on quarta-feira, 18 março, 2009 at 2:53  Comments (3)  

Notícias de Zonas Desconhecidas

Novo link entre os outros sítios:

http://donosdamidia.com.br/

Informação é arma de destruição da massa.

Agora pensando em vôos rasantes, preciso chegar até embaixo para pegar impulso e fazer um vôo livre sobre toda a decadência.

 

Hoje, no ponto de ônibus, o ponto de interrogação no ar:

“Como pode alguém investir milhões para ser um deputado ou senador? Será possível tal filantropia?”

 

S’eu tivesse alguns milhões e nada pra fazer, creio que tentaria, sim, ser um político – mas penso que é sempre melhor ser oposição, liderar a oposição.

 

 

Published in: on terça-feira, 17 março, 2009 at 3:13  Comments (2)  

É de comer?

Sem pretos não há Pernambuco e sem Angola não há pretos.

Tenho um ontem terminado de forma estranha. Irritei um policial (em horário de folga) ao perguntar se ele era corrupto (e obter a resposta “Sim e Não”).  Ainda mastigando isso, conversei com “marxistas” (se é que existe tal aberração) que desconheciam o significado de hermenêutica, método, círculo de viena e, pelo qu’eu me lembre porém não menos importante, tendo eu citado David Hume, sofri reações negativas  como “Li em algum livro que ele era burguês, então não o li” ou “ele era marxista? você o está defendendo” – quando tentei explicar que Hume não tinha como ser adepto de Marx porque veio antes dele (1711 — 1776), ficaram surpresos. Depois disseram qu’ele era idealista (ele é fundamental pensamento cético atual, além de ter aprimorado a epistemologia, estudo do conhecimento)…

Descobri mais tarde o porquê da confusão: eu estava em meio a um monte dos que se consideram historiadores, onde o caso é qu’eles também achavam qu’eu detinha todos os conceitos e preconceitos da dita disciplina acadêmica.

 

Agora eu pergunto: Materialismo histórico, é de comer?

 

Começo a perceber que suporto a ignorância dos que nada sabem, mas não suporto aqueles que foram treinados para saber.

 

Published in: on domingo, 15 março, 2009 at 9:27  Comments (3)  

Afastem-se os Geômetras!

Aguardo notícias do olfato, do paladar e do tato antes de confiar no que ouço e vejo. Não meço as grandezas distorcidas pela retina, meço-as quando as obtenho.

Lá estão todos que foram dispensados. O desempregado que se rendeu nu, deitado no chão do banheiro da loja; o casal de homossexuais que se acaricia “semipublicamente” (quatro paredes abertas a público não são “reservadas”?) no mesmo recinto, no dia seguinte. Vai-se o mendigo e o flautista de Berlim, que não me parece ser estrangeiro, pois que se encaixa na paisagem cosmopolita sem graça, de figurantes distorcidos. Não vi nada disso, são ecos das novidades diárias, manchetes sem graça de uma piada gasta.

Gosto mesmo de presenciar a surpresa causada pela combinação de pessoas, de ver que as pessoas acham que estão preparadas para o inusitado, que treinamentos resolvem problemas possíveis…

 

 

Published in: on sábado, 7 março, 2009 at 5:05  Comments (3)  

Vão-se os transeuntes

Também a moral é uma questão de tempo.

Desobedeceremos nossas próprias leis, criaremos novos paradoxos, que faremos nós da vida? Que tipo de corrupção (positiva) será possível? Onde estão as falhas a serem aproveitadas, as lacunas todas… Cadê as possibilidades de sermos?

 

Published in: on quinta-feira, 5 março, 2009 at 2:19  Comments (2)  

O Ser é antes de tudo o Percebido

“Afirma-se também, e a anedota é útil para estabelecer filiações filosóficas, que Demócrito notou em um porto do Mediterrâneo a inteligência, ou a aura, ou a sagacidade de um carregador particularmente esperto. Compra o carregador, depois o promove a secretário. Mais tarde, este se tornará um filósofo famoso, de nome Protágoras, aquele que afirma o homem como medida de todas as coisas…”

Michel Onfray, Contra-História da Filosofia.

Caminhei um pouco a mais que o obrigatório de todos os dias. Ao invés de adentrar o prédio inconveniente e acarpetado, resolvi me atrasar para o trabalho.  Nada extraordinário ou excêntrico, apenas digamos aleatório – nenhuma cousa mais estranha à razão que a simples e súbita vontade. Precisava ler mais algumas páginas. A curiosidade perseguia meus passos desde quando fechei o livro ao deixar o vagão do trem. Queria lê-lo, queria mesmo! Espontaneamente, vi uma sedutora geladeira de sorvetes, provocativamente à porta do bar (!) e desejei algum picolé de fruta – tempos atrás objeto digno de reis. Sentei num dos raros jardins públicos para festejar minha aquisição corriqueira, prazerosamente consumida em alguns minutos. Dois pés-de-vento passaram por mim, refrescando-me o rosto. Lembrei-me de tomar fôlego e voltar ao obrigatório, esqueci-me que não possuía o dia inteiro para mais algumas páginas.

 

 

Published in: on domingo, 1 março, 2009 at 6:38  Comments (3)