3.1415926535…

0, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610…

Nenhuma explicação que valha a pena.

Lembro-me de ter lido sobre um certo teorema (que passou trezentos anos sem solução) numa pequena livraria da Rua Augusta, que deve ter fechado já. Eu tinha uns 18 e estava em horário de almoço num trabalho medíocre. Pensei agora como são estranhas as coisas da razão: o  Teorema de Fermat foi útil por causa dos  cálculos que inventaram para tentar prová-lo… Os meios mais importantes que os fins! Muitos morreram sem encontrar a resposta certa – sendo que a não há – ignorância de matemático!

A empresa medíocre foi mais útil pelas coisas que descobri e pelas que resolvi não fazer enquanto eu a frequentava. As coisas descobertas para além do objetivo das ciências me encantam!

Prossigo sem sofrer com objetivos.

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Published in: on sábado, 25 abril, 2009 at 3:26  Comments (3)  

Hora de partir?

Acordado, atrevidamente desejando.

É hora de levantar da cama? São tempos de mudança? Abriremos mão do que herdamos? Queremos tanto tudo isso? Onde compro as passagens? Neste ponto devemos desistir?

[Hoje foi curioso ver um grupo de atores vendendo a céu aberto cenas de teatro. Eles ofereciam um menu com cenas à escolha e, segundo o anúncio, fariam imediatamente. Arte-mercadoria?]

Não me entretinha com preocupações, meus olhos vidrados, fixos no horizonte de minha mente deixaram claro o torpor tamanho em qu’eu estive enquanto caminhava.  Não consegui me desvencilhar daqueles devaneios tão vívidos e prazerosos. Perguntaram-me em que pensava de forma tão concentrada.

E assim esqueci o assunto em que pensava, restando apenas sensações.

 

Published in: on domingo, 19 abril, 2009 at 4:05  Comments (4)  

Natura non contristatur

Seus pés sutis nunca tocam o solo,

mas passeiam sobre as cabeças dos homens.

Levantei-me e pus depressa meus pés no chão, de um passo a outro já havia colocado as duas pernas da calça sem acender a luz, até porque era tarde já e meus dentes foram escovados em poucos minutos, enxaguados já no andar inferior da casa, no tanque do quintal. Atrasado? Não. Só não quis registrar o meu despertar – o que resulta numa sonolência alongada. Era um desses dias em que faz  mal ao cérebro perceber qu’estamos submetidos a tudo e dos quais o único remédio a ser extraído é a distração completa que só a pressa e a indiferença são capazes de proporcionar.

Olha que poeta idiota qu’eu sou, todos os dias penso em versos antes de adormecer e acabo por não anotá-los – acho-os bons, ainda que não rimem completamente entre si. Se os anotasse, jogaria fora. Se alguém os roubasse, eu negaria que foram meus. Mas se, por acaso, ocorresse deles serem publicados, apreciados por desconhecidos, sei que depressa os trancaria entre os livros da minha estante, para que se confundissem co’ resto dos bons textos que vagam sem autor, por aí.

Depois de descobrir o prazer de escrever e não o de ser lido, parece-me mais interessante simplesmente não escrever. Porque o sentido que vejo nas linhas que escrevo é fluente, vivo, apaga-se comigo.

Published in: on quarta-feira, 15 abril, 2009 at 2:03  Comments (3)  

Folgado

Por ser um jovem inexperiente, como o francês pela aparência me julgava, talvez amanhã eu me visse eventualmente perdido num labirinto com setecentas portas. Mas eu não tinha dúvida de que, para mim, a porta certa se abriria sozinha. De trás dela, me chamaria pelo nome justamente a pessoa que eu procurava. E esta me anunciaria com presteza à pessoa influente, que desceria as escadas para me buscar. E me abriria seu gabinete, onde já me aguardariam várias chamadas telefônicas.

Foram-me concedidos, conforme decreto irrevogável, três dias consecutivos de alforria, assim determinados sob a justificativa de feriado religioso neste Estado de direito ‘laico’ e co’a esperança de que meus humores permaneçam num limite pré-revolucionário. É coloquial dizer que recebi uma folga. Portanto, declaro nesta data sem equívoco qu’estou folgado.

Published in: on domingo, 12 abril, 2009 at 21:09  Comments (3)  

O movimento da melodia

A essência do homem consiste em sua vontade se esforçar, ser satisfeita, e novamente se esforçar, incessantemente; sim, sua felicidade e bem-estar é apenas isto: que a transição do desejo para a satisfação, e desta para um novo desejo, ocorra rapidamente, pois a ausência de satisfação é sofrimento, a ausência de um novo desejo é anseio vazio, languor, tédio.

Não quero algo como quem o desejaria por toda eternidade. Meu desejo, submeto-o à minha condição de matéria jogada no tempo das coisas que envelhecem, nada quero para amanhã ou de ontem. Quero ardentemente soluções de um bon vivant.

Sentir preguiça ao acordar, ler preguiçosamente antes de dormir e nesse meio-tempo não fazer mais que dito necessário.

Por ora é isto, deixe ser, estar e permanecer. A mudança é inevitável e alcançar-nos-á. Aguardar é mudar.

 

Published in: on quinta-feira, 9 abril, 2009 at 3:07  Comments (4)  

Paciente

Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

Estranho às coisas da vida, fico pensando se sou um paciente.

Psiquiátrico, neurológico ou simplesmente destinado a placebos mil?

Como a multidão de corpos que cultuam ídolos religiosos, políticos e teorias científicas, devo procurar uma panacéia para os males do mundo e do corpo?

É esquisito ouvir ou ler a frase “Sejamos pacientes”.

 

Published in: on quarta-feira, 8 abril, 2009 at 2:29  Deixe um comentário  

A negação da coerência, comprovada.

A falência do político prepara a cama para o religioso

Não era a primeira vez que descia desgraçadamente do ônibus, co’a infeliz sensação de não querer subir em outro desses para sempre – enquanto ia  para a segunda e última parte  do trajeto utilizando ainda mais um ônibus, que fazia o resto do caminho infernal. Não era o incômodo da chuva que caía em gotas finas e pequenas – porém de forma intensa – , os guarda-chuvas enfileirados à altura dos olhos de alguém com estatura acima da média nacional é que causam aflição e desespero a este que, diz-se, é alto – somando-se estas duas sensações à angústia de quem anseia por se livrar de tudo que dizem ser público o mais rápido possível para estar em casa. O contrassenso fica constatado quando o ônibus fica preso por causa da excessiva quantidade de veículos particulares.

Um meridiano decide quanto à verdade; uns graus a mais ou a menos, na superfície do globo, decidem finalmente quanto a nossa existência.

Published in: on segunda-feira, 6 abril, 2009 at 2:45  Comments (4)