Kairós

Vejo o cortejo passar e sei que não há cadáver sendo transportado. É um ser vivo que se encontra deitado, descansando profundamente como um leão depois de consumir sua presa. O caso é que nosso amigo ali é que foi consumido, ele presa do tempo, que lhe retribui com o descanso. Preocupa-me o fato de poucas pessoas saberem reconhecer um cadáver. Quase ninguém o sabe!

Por que será que ele não acorda? O que estará sonhando? Alguém certamente achará qu’estou tratando com eufemismo um fato grave, qu’estou poetizando a morte; como eu disse, poucos sabem reconhecer um cadáver…

Há o tempo linear e o tempo dos acontecimentos. Nem tudo que ocorre é um acontecimento. Reconheçamos, não há coisas marcantes vindo com muita freqüência nessa vida; sem falar que é preciso que produzamos esse acontecimento, que intervenhamos e nos concentremos no evento. Pois bem. Somos responsáveis pelo que produzimos.

 

 

Published in: on segunda-feira, 25 maio, 2009 at 19:04  Comments (4)  

Algo Há

 

Oculto,  fervendo lento por dentro, há aquilo que mais profundamente negamos, que desejamos enfrentar mas não podemos. Escrito nas entrelinhas de cada contrato em que consta nossa assinatura, onde nem a grafologia ousaria apostar, esconde-se um estandarte-símbolo de nossos dissabores, nossa identidade mais familiar. O eu que nos espreita internamente sequer faz sombra, requer sensações além da percepção visual, ainda que se faça desenhar em certos lugares pelos quais há muito não passamos.

Quais são as impossibilidades que a todos atingem nesta empresa tão particular? Por que é preciso o outro para saber de si mesmo? Haverá antes o insolúvel áspero que é a morte?

Algo assustador há, disforme e intátil.

Published in: on sexta-feira, 22 maio, 2009 at 3:16  Comments (2)  

Mente Teratológica

 

As paredes convidam a largar meu pensamento. Seu branco manchado pelo tempo faz aumentar o apetite por criar algo que sobreviva a mim, penso numa obra que não me traga lucro nem desgosto, autônoma e humana, mas não a ponto de ser apenas podridão. Preciso de um texto tangível, corroído como o acabamento interno da casa histórica. O que se esconde entre os tijolos, que não se permite ver a não ser que sobre a superfície estejam se espalhando rachaduras e migalhas? Serei eu comprimido entre as camadas de tinta? O que une é o mesmo que não permite outro equilíbrio senão o empilhamento? Não creio poder ir tão longe. Não posso tentar tirar tudo qu’eu conseguir até que desmorone tudo. É preciso desvendar, mas deixar algo inteiro para os outros. A parede não sobrevive ao desgaste de sua superfície, então como fazer para atravessar seu sentido sem danificar sua existência, se o que me entretém e me comove é seu desmanchar lento, essa erosão tão justa? É meu rosto naquela mancha de infiltração? Meu corpo no rastro dos insetos, sendo invadido e  deteriorado por essa vida insignificante? Pensam o quê ao verem que as marcas já não são mais do tempo, esse mensageiro dos fatos, mas de quem passou por mim? Já não encontro a porta, não vejo saída entre as rugas e a frágil constituição da estrutura toda. Não sei onde acaba a parede. Esse amontoado de defeitos já foi parede? Vejo um mural de erros da engenharia, arquitetura, decoração…

Vejo simplesmente tudo desabando. Um arqueólogo deverá encontrar algo que tenha sobrevivido à parede. Um detalhe, um erro de projeto, de idiossincrasia tão magnífica que mereça sobreviver à própria construção.

Published in: on sexta-feira, 15 maio, 2009 at 4:56  Comments (1)  

Hoje não é Amanhã

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Mario Quintana

Vejo-me obrigado à condição de peripatético. Não posso raciocinar sem curtir meus pensamentos,  movimento-me para entender diferente, redescubro ideias no passeio público. Entendo-me no ritmo do meu passo, gosto de caminhar em vão, pelo ato e não pelo objetivo – deixar o tempo lento, eis um ganho.

Published in: on domingo, 10 maio, 2009 at 9:23  Comments (2)  

12:56

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

– B. Brecht

O que leva meu cérebro a de repente sair do sossegado descanso? Que força é essa, que decide que não é mais hora de dormir, mas de levantar e ver o que há? Achei qu’estava sonhando, até o desejei, mas em verdade era tudo verdade para os outros – se fosse só pra mim, seria de olhos fechados qu’eu veria… Não sei o que fiz daquilo que fui; a quem terei entregado  o segredo que me enterrou? Em que página anotei minha confissão?

A melhor parte de meu dia foi ouvir “Papai, vem ver a mágica” quando uma menininha de um metro de altura puxou apressadamente o pai pela mão e mostrou o aquário, que olhado de certo ângulo, tornava-se espelho numa das faces, mas que, dando um passo pro lado imediatamente ficava transparente. Não é porque algo tem explicação pra uns que não pode ser mágico para outros. Eu confio no julgamento daquela pequenina, há algo de mágico em descobrir os objetos de novas maneiras.

 

Published in: on segunda-feira, 4 maio, 2009 at 2:39  Comments (3)