Oca

Faz muito que se sabe que uma pergunta relevante está implícita e que a interrogação é só para criança entender ou adulto idiota achar o “óbvio” ali, mas não tenho dúvida de que o portuguesinho premiado pelo cadáver de Alfred Nobel tenha em muito me satisfeito por só usar os chamados pontos de afirmação e fazer-nos saber que o personagem está a perguntar.

Pensei hoje O fracasso tem seus caminhos, mas ele sempre arranja um atalho pela falha humana.

Sonhei que tinha comprado uma casa com rampas por dentro, como um desses locais mal-projetados por Niemeyer. E a casa era grande, tão grande que havia partes que só  conheci quando me mudei. Havia caminhos perigosos para atravessar nos fundos, mas tudo não passava de um jogo estranho, acionado por pesos e pelo movimento. Poços fundos e prédios insensatos foram surgindo. Então acordei com um pedreiro gago falando nos corredores daqui.

Published in: on domingo, 30 agosto, 2009 at 2:02  Comments (1)  

Natureza Humana

Como pode um humano escrever um tratado sobre sua própria natureza? Como posso conseguir compreender tal projeto?

Volto-me às questões morais e elas não são menos que poesia. É uma experiência interessante mergulhar tão fundo. O conhecimento é uma das coisas que não permitem que se recue ou retorne – uma vez descoberto, esse monstro ontológico nos devora (e aí penso que a Esfinge de Édipo era um pouco menos feroz, pois era possível vencê-la).

Published in: on quinta-feira, 20 agosto, 2009 at 3:26  Comments (2)  

Quid quaeris?

 

Segue o tráfego, o desespero por espaço, o sufocamento.

Eu estava indo noutra direção, quando o fluxo me atropelou.

Aquilo é incrível. Como fazem coisas tão coloridas, assim, para nos fazer querê-las num dia claro com sol amarelo e céu azul? Por que alguém maldosamente vem nos tentar com doçura e leveza? É um convite irrecusável, é desleal!

As nuvens podem estar tão baixas e comestíveis quanto o algodão-doce que aquele homem velho vende?

Published in: on quarta-feira, 19 agosto, 2009 at 3:19  Comments (1)  

Coisa

s.f. Tudo o que existe; todo ser inanimado, animado, real ou aparente: ir ao fundo das coisas. / Objeto suscetível de apropriação, propriedade: ele possui poucas coisas. / O que ocorre; acontecimento: o curso natural das coisas. / Fato. / Pop. Negócio, troço. / Algo. / Pop. Diabo. // Coisa em si, realidade absoluta (por oposição a aparência, ou representação). // Coisa nenhuma, nada. // Coisas do arco-da-velha, coisas incríveis, extraordinárias. // Loc. prep. Coisa de, cerca de: chegou há coisa de uma semana.

A coisa entrou pela janela e ela mesma se apresentou, empoleirando-se na cadeira. A coisa em si não era feia nem bonita, era coisa nova e não tinha um porquê pr’aquela hora. Chegou como objeto não-identificado, golpe publicitário ou de estado, quase como extraterrestre hippie. Não tinha bom senso nem educação, era meio afrodescendente e 2/4 eurasiática, votava nulo e jogava no meio de campo. Coisamente virou tema para poesia contemporânea do século passado e quis a vida que se escafedesse junto com uma de minhas meias.

E assim, tarde da noite, resolvi falar sobre coisa nenhuma.

 

 

Published in: on segunda-feira, 10 agosto, 2009 at 3:07  Comments (2)