Sob os canhões, o sujeito

Memórias de um Sobrevivente Inventado em uma Madrugada cujo sonho não viria entre um fechar e um abrir de olhos, porém através de uma janela e um caderno vivo. Os direitos autorais serão do pássaro que, dispondo do poste de luz da praça, canta a partir das três da manhã por não saber porque segue tão fraca a luz do “Sol”?

 – Onde está a poesia que serve a isto, que poeta, ante tal discrepância existencial, levantaria um lápis ao invés de se recolher por detrás dum escudo? Indagava-se o padre, em meio aos bombardeios em sua cidade, iniciados havia poucos dias. A razão humana e, no caso deste personagem, a fé também, está pronta a abdicar de suas frivolidades para dar conta de contingências. Não os entendemos porque já não os temos entre nós com tanta frequência; e se carecemos de poetas é porque somos violentados – de que benefício podemos dispor na literatura se o estupro está sempre entre o livro e a esquina? Houvesse mais poetas para atender essa demanda geométrica, estaríamos mais confortáveis para as reações adversas às nossas escolhas morais. Se há poetas, quer dizer que o tempo ainda nos frequenta pausadamente, envelhecemos com certa gratidão e gentilmente a nostalgia nos virá entre o Alzheimer e a Impotência – até que todas vontades não sejam mais que prazerosas lembranças – o que não perceberemos, então. Não temos poemas, temos o Diário Oficial “e isso deve bastar, caro Doutor”.

As placas, com seus versos anônimos tão modernistas e autoritários, podem ser lidas até do avesso que a significação é a mesma: não pare para ler, que a lei já vai por entre o fígado e o intestino até você, atenção à estrada, caro cadáver, pois ninguém te há de recolher!

Minhas condolências a todos.

Doe, por favor ou por dever, vosso sangue ou plasma, esperma, medula, saliva, tecidos, órgãos, vida, tempo, dinheiro, força de trabalho, faça como os médicos, todos cirurgiões-gerais d’alma que inventamos ter, prolongue o sofrimento por aí – ou desligue seus aparelhos.

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Published in: on segunda-feira, 27 setembro, 2010 at 3:49  Comments (1)  

Uma vez mais, o silêncio.

Já não faço mais da escrita-pública um confessionário interminável, nem uma contemplação interrogada por reflexões ociosas, carentes de um Outro inteligente. Atualmente não verbalizo certas coisas, principalmente profissionalmente. É meu silêncio que complicará, cada vez mais, a aplicação das políticas que me ofendem.

Como filósofo, estou algemado ao funcionário. E usarei os dois.

Jamais serei tal homem que, rebaixado à hierarquia, age de forma destrutiva. Se há hierarquia, denunciaremos hierarquicamente. Mil cairão sobre nossas cabeças, nenhum ao nosso lado, até que o nosso esteja acima de todos os corpos. Estaria na bíblia, não fosse ela tão corporativista.

Quando na universidade, essa sedentária e primária instituição de podres teses, não ouço o eco das grandes perguntas, apenas apontamentos das notas de rodapés, fico em silêncio.

E o faço porque não é o silêncio de quem está desiludido. É um silêncio deste cansaço, desta vontade de poder descansar no futuro. Estou acumulando forças que começam a se desentrincheirar.

Published in: on terça-feira, 21 setembro, 2010 at 2:19  Comments (3)