Viajar no Tempo

Lembramos que estávamos felizes, mas não lembramos dos músculos se contraindo para sorrir. Choramos co’as vacinas da infância, mas não lembramos da tal “picadinha” que a enfermeira falou.

Frequentei um outro espaço, visitei um outro corpo que não este. Seis anos atrás. Li as linhas que escrevi, mas que não são minhas – nem nunca foram. Era uma antiga canção ou uns tantos versos que não rimavam de propósito. Não fazia questão da métrica, essa digna burocracia daqueles que já foram tantas vezes lidos. Mas estava ali algo diferente desta juventude que tenho agora. Era um cheiro de frutas recém-lavadas junto a um som que ninguém jamais parou para ouvir.

Percorri o tempo entre esses seis anos assim que me encontrei naquelas letras manuscritas. Viajei ao futuro. Um poeta tão bom deve estar ocupado com as grandes questões da humanidade, deve ter uma obra extensa e ter realizado textos inigualáveis. Mas em que porta devo bater para encontrá-lo? Provavelmente ele deve estar ocupado com seus amores, seus estudos ou com a música. Ah, sim, deve ser um grande amante também.

Deve ser aquele homem impecável, terno e colete, elegante, sentado no banco daquele parque esperando alguém. Pensando bem, seis anos é pouco para alguém passar de ingênuo a cavalheiro. São adjetivos que requerem mais tempo que isso. Deve ser aquele que usa jeans e camiseta, despreocupado ainda. Mas não, seria um tolo se em seis anos não tivesse deixado de ingenuidades para preocupações mais relevantes. Afinal, é um grande poeta, tenho certeza…

Há uma porta sem maçaneta feita de vidro e aço, com batentes de madeira e que fica no meio da parede. Lá, intangível, vejo um perfil parecido com aquele. Não é um cavalheiro ou alguém despreocupado. Não  um eu-lírico, heterônimo, pseudônimo ou qualquer hipocrisia de autor. Será eu?

Só que não é coisa minha ser este, não nos últimos anos.

E de repente me sento naquela ingenuidade, em toda aquela certeza, sentida impulsivamente e com as imagens todas que construí em tão poucas linhas.

Às sensações que se reconstruíram de fora para dentro, invadindo-me em turbilhão, devo agora a dificuldade de reconhecer este grande poeta, ao olhar no espelho.

Os músculos se vão contraindo. Mas a quem devo o sorriso?

 

Published in: on segunda-feira, 18 outubro, 2010 at 2:47  Comments (2)