Cães-de-Guarda da Burocracia

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[Álvaro de Campos]

Entre a tragédia e a farsa…

Fico a me perguntar se, num bar ou na rua, qualquer um me propusesse uma ousada questão, eu me colocaria na posição de professor e arrebataria sua audácia com uma refutação sem igual: responder é parte da minha profissão, quanto está disposto a investir para saber isso que tanto lhe importa?

Quem sabe se o amigo poeta só fizesse versos pagos, não seria milionário?

Ou se só entendêssemos arte patrocinada, esporte profissional e debates acadêmicos?

Essas perguntas não são interessantes. Interessa entender a razão de sua retórica: falo aqui de vocação. O dicionário não nos salva da estupidez ou do desentendimento, por isso uma história autobiográfica cabe bem:

Eu tinha lá meus 6 anos quando, num colégio mais-que-católico veio à minha sala uma freira, para conversar sobre o que fosse possível – talvez com alguma intenção doutrinária, não tenho como lembrar. Abriu-se espaço para perguntas e eu logo o ocupei: “como você se tornou freira, não quis ser outra coisa?”, claro que sua resposta envolveu um ‘chamado’ divino, isto é, disse especificamente “eu me tornei freira porque essa é minha vocação”. Um chamado vindo do desconhecido. Ela se entregou à ‘profissão’ que lhe cabia, aquela na qual sentiu mais encaixe. Não recusava ser freira em nenhum minuto do dia, assim sendo perfeitamente definida [não só devido ao hábito].

Eu sei de mim como professor. Sê-lo gratuitamente não me ofende porque é mais necessidade minha que o oposto.

O cão foi lançado à calçada por um carro cujo motorista não fez nada que pudesse aplacar as dores de sua vítima. Talvez o anônimo omisso fosse cartesiano. Lembro Descartes defendendo que animais não têm alma, seus gritos de dor são apenas reflexos mecânicos. Recuso-me furiosamente.

Um cão e um carro soltos na rua não são acidentes, tanto quanto vazamentos nucleares não o são. Alguém descuidou ou maltratou o cão. Outro alguém escolhe dirigir e agir imbecilmente [é preciso ser alfabetizado para dirigir, afinal]. Nenhuma coincidência nisso, muito menos naquilo que se seguiu após o encontro desses fatos.

O cachorro corre gritando. Deita do outro lado da rua. Corri e abracei em meu colo. Alguém xinga. Seus palavrões eram contra o motorista que andava à sua frente e que não parou nem para ver se amassou o próprio carro. Esse cara ofereceu ajuda de todos os tipos.

Fomos atendidos por mais de cinco profissionais e as únicas atualizações de estado de saúde que ouvi se referiam, antes de mais nada, ao preço acumulado dos procedimentos. Eu perguntava o que era estritamente necessário para ter certeza da saúde do cão. Foram lá setecentos e tantas necessidades.

Eu conhecia o acidentado há cinco minutos. Ele herdou dinheiro que já era do banco, através de mim. Se o banco soubesse quem sou, não me daria crédito. Sou um cão tolerado pela gerência porque sou um endividado inofensivo, domesticado.

Nenhum tipo de desconto real foi feito e a cada exame obviamente supérfluo que desautorizava, obtinha incertezas assustadoras da veterinária de carreira. Por que ela não se tornou funcionária pública? Podia torturar pessoas com carimbos em três ou quatro vias! Uma burocrata que mexe com merda e sangue e, mesmo assim, apareceu com as mãos e roupas limpas para falar conosco.

Acabei por limpar eu mesmo toda a bosta que a “doutora” deixou no traseiro do cão. Limpei ali, enquanto falávamos de preço, lei da oferta e da procura, pesos e medidas.

Minha vocação é mostrar o rastro de merda dos medíocres.

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Published in: on sábado, 18 maio, 2013 at 6:05  Comments (1)  

Entre Pedras

“I can’t see the future
But I know it’s watching me
(wonder what it sees)”

Estou sempre caminhando por ruas não-planejadas, erro o caminho despreocupadamente e encontro um mendigo comunicativo e educado que me lembra o chapeleiro maluco, descubro um café diferente no serviço e no gosto, aprecio mais o cheiro e a sensação do vento que o sabor. Já encontrei coisas impensáveis, passei dias fora de casa, sem querer antecipar qualquer ideia, sabendo de coisa alguma. Seria esperado que me surpreendesse, porém nada pareceu anormal o suficiente para romper a continuidade das descobertas comuns.

Enquanto escrevo,

imagino

calçamentos portugueses sendo reformados para calçadas planas, chatas, cinzas; telhados com janelas de vidros quase inteiros, madeiras quase novas, roupas a secar, decorando cortiços antigos; velhas gordas e italianas, seus poucos dentes tortos e amarelados parecem tentar sorrir. Falam sobre preços, sobre novelas. Seus maridos estão rindo alto noutras esquinas, entre dominós e mesas de bilhar. São vidas aposentadas, abortadas nas burocracias antigas. Operários passam, quarenta anos atrás, por onde vão os executivos que me provocam com sua mediocridade. Esses dentes amarelados por substâncias é que não pretendem sorrir jamais. As vitrines desejam ser clássicas, mas ficam vulgares porque são obrigadas a dizer o valor superestimado das peças expostas. Os museus, em sua maioria, não cobram entrada. Não às terças-feiras. Não nos revelam o valor de suas peças, temos que nos deixar levar por alguns minutos frente a elas.

Imagino mais que escrevo.

Published in: Sem categoria on terça-feira, 7 maio, 2013 at 4:19  Comments (1)  

Chave sem Porta

Encontrei uma chave que nunca abriu porta nenhuma.       

 

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Então serve para quê?

Serve para qu’eu construa uma porta a ser aberta por esta chave-maçaneta.
Quem sabe uma gaveta, um armário, um erro? Achei uma chave sem porta, um começo de equívoco que pode receber sentido.

Uma chave que não tranca, não impede, que facilita.

Encontrei um “sim”.

 

P.s.: Notei abaixo que, em 2010, escrevi no texto “Viajar no Tempo” o seguinte: “Há uma porta sem maçaneta” quando falava da procura do poeta qu’eu poderia ter sido neste futuro de agora [ou de então]. Não fiz conexão entre os dois pensamentos quando escrevi hoje. Falta-me a porta e o espelho adequado ainda. Porém o espelho depende do reflexo, a porta do caminho, tudo depende das vontades.

 

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 6 maio, 2013 at 20:20  Deixe um comentário