O fim da história líquida

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Santiago, 2011. Praças em fogo, ruas pichadas e até os mais idosos apoiavam a luta por educação pública até o nível superior.

A revolução é confusa, difícil de se explicar e quando se estabelece deixa seu estado gasoso em busca de algo mais sólido. Daí a mente tacanha olha, confusa, as opiniões que lhe cabem tentando fazer adivinhações por meio dos preconceitos mais fugazes. Não está embaixo da minha janela, nem nos jornais daqui ou de outro lugar, não está nas telas, nas páginas amarelas. Espero que floresça no anonimato apartidário, na identidade coletiva.

Fico a pensar que espectadores ou são desleais, ou são desonestos.

Não admito este silêncio entre paredes. Tenho poucos dias para decidir o que posso ser nisto.

Este dia treze de Junho doeu assistir.

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Published in: on sexta-feira, 14 junho, 2013 at 4:16  Comments (2)  

Cães-de-Guarda da Burocracia

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[Álvaro de Campos]

Entre a tragédia e a farsa…

Fico a me perguntar se, num bar ou na rua, qualquer um me propusesse uma ousada questão, eu me colocaria na posição de professor e arrebataria sua audácia com uma refutação sem igual: responder é parte da minha profissão, quanto está disposto a investir para saber isso que tanto lhe importa?

Quem sabe se o amigo poeta só fizesse versos pagos, não seria milionário?

Ou se só entendêssemos arte patrocinada, esporte profissional e debates acadêmicos?

Essas perguntas não são interessantes. Interessa entender a razão de sua retórica: falo aqui de vocação. O dicionário não nos salva da estupidez ou do desentendimento, por isso uma história autobiográfica cabe bem:

Eu tinha lá meus 6 anos quando, num colégio mais-que-católico veio à minha sala uma freira, para conversar sobre o que fosse possível – talvez com alguma intenção doutrinária, não tenho como lembrar. Abriu-se espaço para perguntas e eu logo o ocupei: “como você se tornou freira, não quis ser outra coisa?”, claro que sua resposta envolveu um ‘chamado’ divino, isto é, disse especificamente “eu me tornei freira porque essa é minha vocação”. Um chamado vindo do desconhecido. Ela se entregou à ‘profissão’ que lhe cabia, aquela na qual sentiu mais encaixe. Não recusava ser freira em nenhum minuto do dia, assim sendo perfeitamente definida [não só devido ao hábito].

Eu sei de mim como professor. Sê-lo gratuitamente não me ofende porque é mais necessidade minha que o oposto.

O cão foi lançado à calçada por um carro cujo motorista não fez nada que pudesse aplacar as dores de sua vítima. Talvez o anônimo omisso fosse cartesiano. Lembro Descartes defendendo que animais não têm alma, seus gritos de dor são apenas reflexos mecânicos. Recuso-me furiosamente.

Um cão e um carro soltos na rua não são acidentes, tanto quanto vazamentos nucleares não o são. Alguém descuidou ou maltratou o cão. Outro alguém escolhe dirigir e agir imbecilmente [é preciso ser alfabetizado para dirigir, afinal]. Nenhuma coincidência nisso, muito menos naquilo que se seguiu após o encontro desses fatos.

O cachorro corre gritando. Deita do outro lado da rua. Corri e abracei em meu colo. Alguém xinga. Seus palavrões eram contra o motorista que andava à sua frente e que não parou nem para ver se amassou o próprio carro. Esse cara ofereceu ajuda de todos os tipos.

Fomos atendidos por mais de cinco profissionais e as únicas atualizações de estado de saúde que ouvi se referiam, antes de mais nada, ao preço acumulado dos procedimentos. Eu perguntava o que era estritamente necessário para ter certeza da saúde do cão. Foram lá setecentos e tantas necessidades.

Eu conhecia o acidentado há cinco minutos. Ele herdou dinheiro que já era do banco, através de mim. Se o banco soubesse quem sou, não me daria crédito. Sou um cão tolerado pela gerência porque sou um endividado inofensivo, domesticado.

Nenhum tipo de desconto real foi feito e a cada exame obviamente supérfluo que desautorizava, obtinha incertezas assustadoras da veterinária de carreira. Por que ela não se tornou funcionária pública? Podia torturar pessoas com carimbos em três ou quatro vias! Uma burocrata que mexe com merda e sangue e, mesmo assim, apareceu com as mãos e roupas limpas para falar conosco.

Acabei por limpar eu mesmo toda a bosta que a “doutora” deixou no traseiro do cão. Limpei ali, enquanto falávamos de preço, lei da oferta e da procura, pesos e medidas.

Minha vocação é mostrar o rastro de merda dos medíocres.

Published in: on sábado, 18 maio, 2013 at 6:05  Comments (1)  

Ecos de Ugarit

Este maestro sírio, Malek Jandali, retirou de uma tábua mesopotâmica de três mil e quinhentos anos esta música. Assistindo sua entrevista, descobri que seu povo inventou a notação musical, fundou o primeiro conservatório de música da Europa [em Córdoba, Espanha].

Parece-me um homem corajoso, desacreditado, tanto quanto eu, das divisões ocidente-oriente e suas fronteiras hostis.

Ah, segundo a wikipedia, ele é primo em primeiro grau do pai biológico de Steve Jobs.

Published in: on terça-feira, 30 abril, 2013 at 4:56  Comments (3)  
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Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Published in: on quinta-feira, 19 maio, 2011 at 1:58  Comments (3)  

Escombros

Neste mundo assombrado por demônios, que se há de fazer senão levantar uma pedra e dizer “veja, não há ninguém aí embaixo”? A natureza não se colocará a milagres e as igrejas, templos e outros erros humanos cairão com terremotos – com sorte também com vulcões e maremotos. Penso que religiões não ocorrem por acaso, tanto quanto acidentes nucleares jamais poderão ser chamados de acidentes sem a incoerência se instalar. O risco calculado, onde está? Para onde vão aqueles que correm de tiroteios, desabamentos e tsunamis?

Temo pelo mundo humano.

Sorrio à promiscuidade da vida que, sem dúvida, inventará espécies mais fantásticas.

Published in: on quinta-feira, 14 abril, 2011 at 23:39  Comments (3)