Bureaucracy

Sobre não entender  duas línguas e três razões contra um visto.

Burocracia é um regime que tem o poder de reverter o sentido da palavra suficiente contra nós. Linhas invisíveis, recusas arbitrárias, papéis “importantes”. Estranhamente, um refugiado de guerra escapa a quaisquer questionários e recebe um visto de residência. Mais uma vez a frequente sensação de estar sempre na situação intermediária – nem refugiado, nem abastado. Devo ser da classe média, não daquela que viaja mais para o exterior que para o próprio país ou aquela que reclama dos avanços sociais, mas d’alguma classe entre isto ou aquilo.

O oficial “não ficou convencido” de que preencho os requisitos. A recusa sempre soa como uma acusação.

Resta-me não estar convencido por isso.

Published in: on quinta-feira, 6 junho, 2013 at 2:41  Deixe um comentário  

Cães-de-Guarda da Burocracia

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[Álvaro de Campos]

Entre a tragédia e a farsa…

Fico a me perguntar se, num bar ou na rua, qualquer um me propusesse uma ousada questão, eu me colocaria na posição de professor e arrebataria sua audácia com uma refutação sem igual: responder é parte da minha profissão, quanto está disposto a investir para saber isso que tanto lhe importa?

Quem sabe se o amigo poeta só fizesse versos pagos, não seria milionário?

Ou se só entendêssemos arte patrocinada, esporte profissional e debates acadêmicos?

Essas perguntas não são interessantes. Interessa entender a razão de sua retórica: falo aqui de vocação. O dicionário não nos salva da estupidez ou do desentendimento, por isso uma história autobiográfica cabe bem:

Eu tinha lá meus 6 anos quando, num colégio mais-que-católico veio à minha sala uma freira, para conversar sobre o que fosse possível – talvez com alguma intenção doutrinária, não tenho como lembrar. Abriu-se espaço para perguntas e eu logo o ocupei: “como você se tornou freira, não quis ser outra coisa?”, claro que sua resposta envolveu um ‘chamado’ divino, isto é, disse especificamente “eu me tornei freira porque essa é minha vocação”. Um chamado vindo do desconhecido. Ela se entregou à ‘profissão’ que lhe cabia, aquela na qual sentiu mais encaixe. Não recusava ser freira em nenhum minuto do dia, assim sendo perfeitamente definida [não só devido ao hábito].

Eu sei de mim como professor. Sê-lo gratuitamente não me ofende porque é mais necessidade minha que o oposto.

O cão foi lançado à calçada por um carro cujo motorista não fez nada que pudesse aplacar as dores de sua vítima. Talvez o anônimo omisso fosse cartesiano. Lembro Descartes defendendo que animais não têm alma, seus gritos de dor são apenas reflexos mecânicos. Recuso-me furiosamente.

Um cão e um carro soltos na rua não são acidentes, tanto quanto vazamentos nucleares não o são. Alguém descuidou ou maltratou o cão. Outro alguém escolhe dirigir e agir imbecilmente [é preciso ser alfabetizado para dirigir, afinal]. Nenhuma coincidência nisso, muito menos naquilo que se seguiu após o encontro desses fatos.

O cachorro corre gritando. Deita do outro lado da rua. Corri e abracei em meu colo. Alguém xinga. Seus palavrões eram contra o motorista que andava à sua frente e que não parou nem para ver se amassou o próprio carro. Esse cara ofereceu ajuda de todos os tipos.

Fomos atendidos por mais de cinco profissionais e as únicas atualizações de estado de saúde que ouvi se referiam, antes de mais nada, ao preço acumulado dos procedimentos. Eu perguntava o que era estritamente necessário para ter certeza da saúde do cão. Foram lá setecentos e tantas necessidades.

Eu conhecia o acidentado há cinco minutos. Ele herdou dinheiro que já era do banco, através de mim. Se o banco soubesse quem sou, não me daria crédito. Sou um cão tolerado pela gerência porque sou um endividado inofensivo, domesticado.

Nenhum tipo de desconto real foi feito e a cada exame obviamente supérfluo que desautorizava, obtinha incertezas assustadoras da veterinária de carreira. Por que ela não se tornou funcionária pública? Podia torturar pessoas com carimbos em três ou quatro vias! Uma burocrata que mexe com merda e sangue e, mesmo assim, apareceu com as mãos e roupas limpas para falar conosco.

Acabei por limpar eu mesmo toda a bosta que a “doutora” deixou no traseiro do cão. Limpei ali, enquanto falávamos de preço, lei da oferta e da procura, pesos e medidas.

Minha vocação é mostrar o rastro de merda dos medíocres.

Published in: on sábado, 18 maio, 2013 at 6:05  Comments (1)  

Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Published in: on quinta-feira, 19 maio, 2011 at 1:58  Comments (3)  

Sob os canhões, o sujeito

Memórias de um Sobrevivente Inventado em uma Madrugada cujo sonho não viria entre um fechar e um abrir de olhos, porém através de uma janela e um caderno vivo. Os direitos autorais serão do pássaro que, dispondo do poste de luz da praça, canta a partir das três da manhã por não saber porque segue tão fraca a luz do “Sol”?

 – Onde está a poesia que serve a isto, que poeta, ante tal discrepância existencial, levantaria um lápis ao invés de se recolher por detrás dum escudo? Indagava-se o padre, em meio aos bombardeios em sua cidade, iniciados havia poucos dias. A razão humana e, no caso deste personagem, a fé também, está pronta a abdicar de suas frivolidades para dar conta de contingências. Não os entendemos porque já não os temos entre nós com tanta frequência; e se carecemos de poetas é porque somos violentados – de que benefício podemos dispor na literatura se o estupro está sempre entre o livro e a esquina? Houvesse mais poetas para atender essa demanda geométrica, estaríamos mais confortáveis para as reações adversas às nossas escolhas morais. Se há poetas, quer dizer que o tempo ainda nos frequenta pausadamente, envelhecemos com certa gratidão e gentilmente a nostalgia nos virá entre o Alzheimer e a Impotência – até que todas vontades não sejam mais que prazerosas lembranças – o que não perceberemos, então. Não temos poemas, temos o Diário Oficial “e isso deve bastar, caro Doutor”.

As placas, com seus versos anônimos tão modernistas e autoritários, podem ser lidas até do avesso que a significação é a mesma: não pare para ler, que a lei já vai por entre o fígado e o intestino até você, atenção à estrada, caro cadáver, pois ninguém te há de recolher!

Minhas condolências a todos.

Doe, por favor ou por dever, vosso sangue ou plasma, esperma, medula, saliva, tecidos, órgãos, vida, tempo, dinheiro, força de trabalho, faça como os médicos, todos cirurgiões-gerais d’alma que inventamos ter, prolongue o sofrimento por aí – ou desligue seus aparelhos.

Published in: on segunda-feira, 27 setembro, 2010 at 3:49  Comments (1)  

Uma vez mais, o silêncio.

Já não faço mais da escrita-pública um confessionário interminável, nem uma contemplação interrogada por reflexões ociosas, carentes de um Outro inteligente. Atualmente não verbalizo certas coisas, principalmente profissionalmente. É meu silêncio que complicará, cada vez mais, a aplicação das políticas que me ofendem.

Como filósofo, estou algemado ao funcionário. E usarei os dois.

Jamais serei tal homem que, rebaixado à hierarquia, age de forma destrutiva. Se há hierarquia, denunciaremos hierarquicamente. Mil cairão sobre nossas cabeças, nenhum ao nosso lado, até que o nosso esteja acima de todos os corpos. Estaria na bíblia, não fosse ela tão corporativista.

Quando na universidade, essa sedentária e primária instituição de podres teses, não ouço o eco das grandes perguntas, apenas apontamentos das notas de rodapés, fico em silêncio.

E o faço porque não é o silêncio de quem está desiludido. É um silêncio deste cansaço, desta vontade de poder descansar no futuro. Estou acumulando forças que começam a se desentrincheirar.

Published in: on terça-feira, 21 setembro, 2010 at 2:19  Comments (3)