Qu’estamos a contar?

 

“Cada homem crê poder dizer o que pensa, mas na realidade acontece o inverso: ele só pode pensar o que pode dizer e porque determinada língua, independente dele, lho permite dizer. Inversão completa do cartesianismo: não é porque ‘eu penso’ que posso dizê-lo, é porque posso dizer ‘eu’ que posso dizer, até crer, que sou uma substância pensante”

Benveniste, Émile. De la subjectivité dans le langage.

 

Quando um livro que não pretendia me fazer ‘sentir’ atinge-me até ficar estático ante tudo que posso pesquisar para entender, entre tantas outras coisas, os benefícios do suicídio como ato livre. Estranhamente, não penso em suicídio como solução para mim, embora não seja meramente um objeto de estudo a possibilidade ainda parece distante.

Tantas interrogações a colocar por aí, como poderia aparecer com um ponto final?

Published in: on quarta-feira, 11 setembro, 2013 at 1:44  Comments (2)  

Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Published in: on quinta-feira, 19 maio, 2011 at 1:58  Comments (3)  

Gato Metafísico

O gato ali descansa. Despreocupado repousa. Seus olhos fechados encerram em si todo o mundo, apenas quando novamente abri-los é que o tempo continuará a correr, então será hora do almoço. Nada põe em dúvida a condição do gato. A única coisa de que ele duvida é se realmente lhe sou necessário.

E só julgo qu’estou frente a um “gato” porque me julgo “homem”, disse um putrefato filósofo francês.

Encontrei algum abrigo na inquietação. Agora preciso movê-la comigo. Como posso arrastá-la para uma existência tão efêmera?

 

Published in: on quinta-feira, 10 dezembro, 2009 at 2:39  Comments (2)  

O que a estante tem a me dizer

Abro a porta do meu quarto e já ouço vozes irônicas, dramáticas, resolutas, todas de certa maneira gritando ou sussurando. É sempre “Leia-me” o que elas dizem, implicitamente sugerindo “Decifra-me ou devoro-te”, porque assim são os livros. E cada vez que, aflito, inicio um livro que tem mais que quatrocentas páginas, logo me alivio co’a curiosidade pela próxima página. Tenho descoberto muito em pouco tempo, sem a pressa das leituras obrigatórias ou a idiotice óbvia das manchetes jornalísticas (ainda mais idiotas quando acompanhadas de fotos).

Estou agora mesmo me dedicando a uma resposta que encontrei num livro e é confortável isso, porque a resposta não é nada sozinha, sem alguém que dela se aproprie.

 

Published in: on quarta-feira, 4 novembro, 2009 at 0:50  Comments (3)  

Natureza Humana

Como pode um humano escrever um tratado sobre sua própria natureza? Como posso conseguir compreender tal projeto?

Volto-me às questões morais e elas não são menos que poesia. É uma experiência interessante mergulhar tão fundo. O conhecimento é uma das coisas que não permitem que se recue ou retorne – uma vez descoberto, esse monstro ontológico nos devora (e aí penso que a Esfinge de Édipo era um pouco menos feroz, pois era possível vencê-la).

Published in: on quinta-feira, 20 agosto, 2009 at 3:26  Comments (2)  

“Palavras são meu jeito mais secreto de calar”

 

Enrolado em silêncio

Ando pensando através de espelhos da realidade, através dos olhos dos outros. Que adianta ler todos, se ao menos uma vez todo autor que li ou leio diz que nenhuma resposta serve às questões mais fundamentais – que todo humano, letrado ou não, sabe quais são – ?

Se não há respostas nos livros, tudo isso é para nos distrair desses pensamentos imensos que nos tomam em desaviso e desagradam com sua lógica maior que nossas inferências?

Acho que só precisamos ocupar o tempo que temos. Como não parecer, ao dizer isso, que não importa como o faremos ou quanto tempo temos para ocupar?

 

Published in: on segunda-feira, 6 julho, 2009 at 5:43  Comments (3)  

…mais um burocrata antropofágico

Esses demônios, dragões que guardam as velhas morais, preferem nos matar de desgosto e ruidosamente. Mutilam-nos os ouvidos, acreditam em discursos repetidos e repetem-nos como novidades. Lobotomizam-nos, ou o tentam, a fim de pôr seus ovos em nossas mentes, para que se reproduzam idiotamente.

Por que quer alguém fazer-me acreditar qu’eu deveria temer pelo meu emprego?

 

Published in: on quinta-feira, 11 junho, 2009 at 3:05  Comments (3)  

Orem para a mesa

…vejam se ela lhes responde. Amém?

Começo a desconfiar que inteligência atrapalha. Sempre fico pensando sobre o qu’eu faria se realmente fosse inteligente e largasse meu emprego, minha família, minha carreira em filosofia e resolvesse minha vida. Deve mesmo dar trabalho, isso de ser inteligente.

 

Não sei o que fazer quando as pessoas sentem qu’eu as desafio – e as que se sentem desafiadas só o sofrem porque não sabem o qu’eu quis dizer e/ou simplesmente não conseguem acompanhar o raciocínio. Noutras palavras, preciso de um método burro.

Pensando seriamente sobre as coisas, decidi qu’era hora de ir dormir.

Published in: on sexta-feira, 5 junho, 2009 at 4:10  Comments (2)  

Algo Há

 

Oculto,  fervendo lento por dentro, há aquilo que mais profundamente negamos, que desejamos enfrentar mas não podemos. Escrito nas entrelinhas de cada contrato em que consta nossa assinatura, onde nem a grafologia ousaria apostar, esconde-se um estandarte-símbolo de nossos dissabores, nossa identidade mais familiar. O eu que nos espreita internamente sequer faz sombra, requer sensações além da percepção visual, ainda que se faça desenhar em certos lugares pelos quais há muito não passamos.

Quais são as impossibilidades que a todos atingem nesta empresa tão particular? Por que é preciso o outro para saber de si mesmo? Haverá antes o insolúvel áspero que é a morte?

Algo assustador há, disforme e intátil.

Published in: on sexta-feira, 22 maio, 2009 at 3:16  Comments (2)  

Hoje não é Amanhã

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Mario Quintana

Vejo-me obrigado à condição de peripatético. Não posso raciocinar sem curtir meus pensamentos,  movimento-me para entender diferente, redescubro ideias no passeio público. Entendo-me no ritmo do meu passo, gosto de caminhar em vão, pelo ato e não pelo objetivo – deixar o tempo lento, eis um ganho.

Published in: on domingo, 10 maio, 2009 at 9:23  Comments (2)