Sem eiras, beirais ou laranjeiras.

…pode sim pode sempre como toda coisa nossa

que a gente apenas deixa poder que possa

[Leminski de 1987]

 

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Meus vizinhos passam a desexistir mais e mais. Vão vendendo lares como se fossem casas. São estatísticas, especulações, devem ser feitos de expectativas temerosas. São metros quadrados de silêncio. Pouco em pouco e todo muro em que sentei vira limite. Cada casa que explorei deixa de ser vizinhança para se tornar território. O carteiro Emerson está submetido às malas-diretas dos escritórios e nada mais. Talvez nos salvemos disso tudo vez em quando, numa carta que sabe de onde veio…

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Deixar que a vida seja tudo como se viver nos desse esse tipo de opção.

*foto da Vila Maria Zélia, lugar fantástico escondido num município besta.

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Published in: Sem categoria on terça-feira, 11 junho, 2013 at 4:18  Comments (1)  

Bureaucracy

Sobre não entender  duas línguas e três razões contra um visto.

Burocracia é um regime que tem o poder de reverter o sentido da palavra suficiente contra nós. Linhas invisíveis, recusas arbitrárias, papéis “importantes”. Estranhamente, um refugiado de guerra escapa a quaisquer questionários e recebe um visto de residência. Mais uma vez a frequente sensação de estar sempre na situação intermediária – nem refugiado, nem abastado. Devo ser da classe média, não daquela que viaja mais para o exterior que para o próprio país ou aquela que reclama dos avanços sociais, mas d’alguma classe entre isto ou aquilo.

O oficial “não ficou convencido” de que preencho os requisitos. A recusa sempre soa como uma acusação.

Resta-me não estar convencido por isso.

Published in: on quinta-feira, 6 junho, 2013 at 2:41  Deixe um comentário  

Cães-de-Guarda da Burocracia

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[Álvaro de Campos]

Entre a tragédia e a farsa…

Fico a me perguntar se, num bar ou na rua, qualquer um me propusesse uma ousada questão, eu me colocaria na posição de professor e arrebataria sua audácia com uma refutação sem igual: responder é parte da minha profissão, quanto está disposto a investir para saber isso que tanto lhe importa?

Quem sabe se o amigo poeta só fizesse versos pagos, não seria milionário?

Ou se só entendêssemos arte patrocinada, esporte profissional e debates acadêmicos?

Essas perguntas não são interessantes. Interessa entender a razão de sua retórica: falo aqui de vocação. O dicionário não nos salva da estupidez ou do desentendimento, por isso uma história autobiográfica cabe bem:

Eu tinha lá meus 6 anos quando, num colégio mais-que-católico veio à minha sala uma freira, para conversar sobre o que fosse possível – talvez com alguma intenção doutrinária, não tenho como lembrar. Abriu-se espaço para perguntas e eu logo o ocupei: “como você se tornou freira, não quis ser outra coisa?”, claro que sua resposta envolveu um ‘chamado’ divino, isto é, disse especificamente “eu me tornei freira porque essa é minha vocação”. Um chamado vindo do desconhecido. Ela se entregou à ‘profissão’ que lhe cabia, aquela na qual sentiu mais encaixe. Não recusava ser freira em nenhum minuto do dia, assim sendo perfeitamente definida [não só devido ao hábito].

Eu sei de mim como professor. Sê-lo gratuitamente não me ofende porque é mais necessidade minha que o oposto.

O cão foi lançado à calçada por um carro cujo motorista não fez nada que pudesse aplacar as dores de sua vítima. Talvez o anônimo omisso fosse cartesiano. Lembro Descartes defendendo que animais não têm alma, seus gritos de dor são apenas reflexos mecânicos. Recuso-me furiosamente.

Um cão e um carro soltos na rua não são acidentes, tanto quanto vazamentos nucleares não o são. Alguém descuidou ou maltratou o cão. Outro alguém escolhe dirigir e agir imbecilmente [é preciso ser alfabetizado para dirigir, afinal]. Nenhuma coincidência nisso, muito menos naquilo que se seguiu após o encontro desses fatos.

O cachorro corre gritando. Deita do outro lado da rua. Corri e abracei em meu colo. Alguém xinga. Seus palavrões eram contra o motorista que andava à sua frente e que não parou nem para ver se amassou o próprio carro. Esse cara ofereceu ajuda de todos os tipos.

Fomos atendidos por mais de cinco profissionais e as únicas atualizações de estado de saúde que ouvi se referiam, antes de mais nada, ao preço acumulado dos procedimentos. Eu perguntava o que era estritamente necessário para ter certeza da saúde do cão. Foram lá setecentos e tantas necessidades.

Eu conhecia o acidentado há cinco minutos. Ele herdou dinheiro que já era do banco, através de mim. Se o banco soubesse quem sou, não me daria crédito. Sou um cão tolerado pela gerência porque sou um endividado inofensivo, domesticado.

Nenhum tipo de desconto real foi feito e a cada exame obviamente supérfluo que desautorizava, obtinha incertezas assustadoras da veterinária de carreira. Por que ela não se tornou funcionária pública? Podia torturar pessoas com carimbos em três ou quatro vias! Uma burocrata que mexe com merda e sangue e, mesmo assim, apareceu com as mãos e roupas limpas para falar conosco.

Acabei por limpar eu mesmo toda a bosta que a “doutora” deixou no traseiro do cão. Limpei ali, enquanto falávamos de preço, lei da oferta e da procura, pesos e medidas.

Minha vocação é mostrar o rastro de merda dos medíocres.

Published in: on sábado, 18 maio, 2013 at 6:05  Comments (1)  

Entre Pedras

“I can’t see the future
But I know it’s watching me
(wonder what it sees)”

Estou sempre caminhando por ruas não-planejadas, erro o caminho despreocupadamente e encontro um mendigo comunicativo e educado que me lembra o chapeleiro maluco, descubro um café diferente no serviço e no gosto, aprecio mais o cheiro e a sensação do vento que o sabor. Já encontrei coisas impensáveis, passei dias fora de casa, sem querer antecipar qualquer ideia, sabendo de coisa alguma. Seria esperado que me surpreendesse, porém nada pareceu anormal o suficiente para romper a continuidade das descobertas comuns.

Enquanto escrevo,

imagino

calçamentos portugueses sendo reformados para calçadas planas, chatas, cinzas; telhados com janelas de vidros quase inteiros, madeiras quase novas, roupas a secar, decorando cortiços antigos; velhas gordas e italianas, seus poucos dentes tortos e amarelados parecem tentar sorrir. Falam sobre preços, sobre novelas. Seus maridos estão rindo alto noutras esquinas, entre dominós e mesas de bilhar. São vidas aposentadas, abortadas nas burocracias antigas. Operários passam, quarenta anos atrás, por onde vão os executivos que me provocam com sua mediocridade. Esses dentes amarelados por substâncias é que não pretendem sorrir jamais. As vitrines desejam ser clássicas, mas ficam vulgares porque são obrigadas a dizer o valor superestimado das peças expostas. Os museus, em sua maioria, não cobram entrada. Não às terças-feiras. Não nos revelam o valor de suas peças, temos que nos deixar levar por alguns minutos frente a elas.

Imagino mais que escrevo.

Published in: Sem categoria on terça-feira, 7 maio, 2013 at 4:19  Comments (1)  

Chave sem Porta

Encontrei uma chave que nunca abriu porta nenhuma.       

 

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Então serve para quê?

Serve para qu’eu construa uma porta a ser aberta por esta chave-maçaneta.
Quem sabe uma gaveta, um armário, um erro? Achei uma chave sem porta, um começo de equívoco que pode receber sentido.

Uma chave que não tranca, não impede, que facilita.

Encontrei um “sim”.

 

P.s.: Notei abaixo que, em 2010, escrevi no texto “Viajar no Tempo” o seguinte: “Há uma porta sem maçaneta” quando falava da procura do poeta qu’eu poderia ter sido neste futuro de agora [ou de então]. Não fiz conexão entre os dois pensamentos quando escrevi hoje. Falta-me a porta e o espelho adequado ainda. Porém o espelho depende do reflexo, a porta do caminho, tudo depende das vontades.

 

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 6 maio, 2013 at 20:20  Deixe um comentário  

Ecos de Ugarit

Este maestro sírio, Malek Jandali, retirou de uma tábua mesopotâmica de três mil e quinhentos anos esta música. Assistindo sua entrevista, descobri que seu povo inventou a notação musical, fundou o primeiro conservatório de música da Europa [em Córdoba, Espanha].

Parece-me um homem corajoso, desacreditado, tanto quanto eu, das divisões ocidente-oriente e suas fronteiras hostis.

Ah, segundo a wikipedia, ele é primo em primeiro grau do pai biológico de Steve Jobs.

Published in: on terça-feira, 30 abril, 2013 at 4:56  Comments (3)  
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Este Verde e Amarelo tão Pamonha

O milho cozido com tantos dentes nos sorri

Uma risada tão amarela

Que sequer nos pesa findá-lo a dentadas.

Se lhe jogamos cru ao fogo,

Basta uma gota d’água dentro de seus grãos

E logo explode seus microgramas de força

Abrindo-se ao nosso vazio,

Revelando-se leve, branco e furioso

Entre nossos dentes restará sua vingança dourada.

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 29 abril, 2013 at 3:20  Deixe um comentário  

Mais uma que chega

Recebi a notícia de um nascimento.

Entre tantas bactérias, vírus, amebas, mais um animal, um mamífero-que-ri. Nós somos diferentes dos outros por isso, não? Nós temos o riso, sabemos da morte e, mesmo assim, estúpidos. Os outros têm motivos melhores para comportamentos instintivamente imbecis.

Eu tenho esperança. Tenho fé. Há alguns anos não teria confessado tão facilmente. Fico impressionado com a quantidade de pensamentos que um novo alguém pode ter. O aleatório é belo, inigualável.

Não me preocupo.

Noutros tempos pensaria que uma nova vida significaria perpetuar nossa miséria. Estamos descobrindo o que não suportamos neste planeta. Poluição, pobreza, desprezo nos deixam tristes – nossas equações igualam tudo à felicidade, desde que a filosofia chegou a este mundo. Tomo gosto por acreditar nos cientistas que descobrem devagar, mas tão definitivamente o que pode ser melhorado, subtraído, ajeitado. Sequer estou pensando naquele manual básico de pequenas atitudes para melhorarmos o cotidiano. Penso hoje no geral, na humanidade. Somos uma praga, um parasita da natureza, somos imperfeitos. Mas podemos ser geniais.

Published in: on sexta-feira, 26 abril, 2013 at 4:37  Comments (1)  

Um Jardim Esquecido.

São tantas mídias, tantos papéis, notas de rodapé, que

Tenho quase esquecido o papel de carta, o personagem despretencioso que é o guardanapo. Uma caneta nova, uma música descoberta que chega por acaso e embala ideias. Tenho um jardim que deixei de visitar. Epicuro não me culparia, ele veio antes da culpa e do pecado baterem à nossa porta; mas tanto ele quanto eu poderíamos lamentar. Epicuro tinha seu jardim, não sei se ele pode ter algo a ver com isso – eu é que acho que tenho que o rever. Eu só tenho telas ou janelas. Será sempre melhor fechar os olhos.

Ouço um tango tocado com violão. Escrevo um poema, uma receita e uma carta enquanto escrevo cá.

Descobri que sei fazer cimento porque já sabia cozinhar. Eu sei escrever porque antes aprendi a desenhar. Eu viajo perseguindo fantasmas de escritores, porque já sabia valsar no silêncio. Tenho ouvido falar demais; de mais preços e mais crimes, índices que nos matam de fome, entre castigos a nos matarem de sede. Tenho lamentado a pouca prosa. O sinal sem fio é maldoso com as saudades de longa distância, longa data. Eu quero meus laços bem atados, como nós, como nós sempre fomos. Quero o passado reativo, mas não.

Há coisas incontroláveis tão obviamente espalhadas, seria uma pena misturá-las na tentativa de impor uma crença de que poderiam estar pacificamente encaixadas e que vale uma vida fingir ser tão racional…

Published in: on quinta-feira, 11 abril, 2013 at 5:53  Comments (2)  

Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Published in: on quinta-feira, 19 maio, 2011 at 1:58  Comments (3)