Chave sem Porta

Encontrei uma chave que nunca abriu porta nenhuma.       

 

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Então serve para quê?

Serve para qu’eu construa uma porta a ser aberta por esta chave-maçaneta.
Quem sabe uma gaveta, um armário, um erro? Achei uma chave sem porta, um começo de equívoco que pode receber sentido.

Uma chave que não tranca, não impede, que facilita.

Encontrei um “sim”.

 

P.s.: Notei abaixo que, em 2010, escrevi no texto “Viajar no Tempo” o seguinte: “Há uma porta sem maçaneta” quando falava da procura do poeta qu’eu poderia ter sido neste futuro de agora [ou de então]. Não fiz conexão entre os dois pensamentos quando escrevi hoje. Falta-me a porta e o espelho adequado ainda. Porém o espelho depende do reflexo, a porta do caminho, tudo depende das vontades.

 

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 6 maio, 2013 at 20:20  Deixe um comentário  

Ecos de Ugarit

Este maestro sírio, Malek Jandali, retirou de uma tábua mesopotâmica de três mil e quinhentos anos esta música. Assistindo sua entrevista, descobri que seu povo inventou a notação musical, fundou o primeiro conservatório de música da Europa [em Córdoba, Espanha].

Parece-me um homem corajoso, desacreditado, tanto quanto eu, das divisões ocidente-oriente e suas fronteiras hostis.

Ah, segundo a wikipedia, ele é primo em primeiro grau do pai biológico de Steve Jobs.

Published in: on terça-feira, 30 abril, 2013 at 4:56  Comments (3)  
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Este Verde e Amarelo tão Pamonha

O milho cozido com tantos dentes nos sorri

Uma risada tão amarela

Que sequer nos pesa findá-lo a dentadas.

Se lhe jogamos cru ao fogo,

Basta uma gota d’água dentro de seus grãos

E logo explode seus microgramas de força

Abrindo-se ao nosso vazio,

Revelando-se leve, branco e furioso

Entre nossos dentes restará sua vingança dourada.

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 29 abril, 2013 at 3:20  Deixe um comentário  

Mais uma que chega

Recebi a notícia de um nascimento.

Entre tantas bactérias, vírus, amebas, mais um animal, um mamífero-que-ri. Nós somos diferentes dos outros por isso, não? Nós temos o riso, sabemos da morte e, mesmo assim, estúpidos. Os outros têm motivos melhores para comportamentos instintivamente imbecis.

Eu tenho esperança. Tenho fé. Há alguns anos não teria confessado tão facilmente. Fico impressionado com a quantidade de pensamentos que um novo alguém pode ter. O aleatório é belo, inigualável.

Não me preocupo.

Noutros tempos pensaria que uma nova vida significaria perpetuar nossa miséria. Estamos descobrindo o que não suportamos neste planeta. Poluição, pobreza, desprezo nos deixam tristes – nossas equações igualam tudo à felicidade, desde que a filosofia chegou a este mundo. Tomo gosto por acreditar nos cientistas que descobrem devagar, mas tão definitivamente o que pode ser melhorado, subtraído, ajeitado. Sequer estou pensando naquele manual básico de pequenas atitudes para melhorarmos o cotidiano. Penso hoje no geral, na humanidade. Somos uma praga, um parasita da natureza, somos imperfeitos. Mas podemos ser geniais.

Published in: on sexta-feira, 26 abril, 2013 at 4:37  Comments (1)  

Um Jardim Esquecido.

São tantas mídias, tantos papéis, notas de rodapé, que

Tenho quase esquecido o papel de carta, o personagem despretencioso que é o guardanapo. Uma caneta nova, uma música descoberta que chega por acaso e embala ideias. Tenho um jardim que deixei de visitar. Epicuro não me culparia, ele veio antes da culpa e do pecado baterem à nossa porta; mas tanto ele quanto eu poderíamos lamentar. Epicuro tinha seu jardim, não sei se ele pode ter algo a ver com isso – eu é que acho que tenho que o rever. Eu só tenho telas ou janelas. Será sempre melhor fechar os olhos.

Ouço um tango tocado com violão. Escrevo um poema, uma receita e uma carta enquanto escrevo cá.

Descobri que sei fazer cimento porque já sabia cozinhar. Eu sei escrever porque antes aprendi a desenhar. Eu viajo perseguindo fantasmas de escritores, porque já sabia valsar no silêncio. Tenho ouvido falar demais; de mais preços e mais crimes, índices que nos matam de fome, entre castigos a nos matarem de sede. Tenho lamentado a pouca prosa. O sinal sem fio é maldoso com as saudades de longa distância, longa data. Eu quero meus laços bem atados, como nós, como nós sempre fomos. Quero o passado reativo, mas não.

Há coisas incontroláveis tão obviamente espalhadas, seria uma pena misturá-las na tentativa de impor uma crença de que poderiam estar pacificamente encaixadas e que vale uma vida fingir ser tão racional…

Published in: on quinta-feira, 11 abril, 2013 at 5:53  Comments (2)  

Tempo de Viver

Por obediência às vontades, tracemos nosso reflexo nestas telas. Sejamos qualquer coisa, no cristal líquido, tubo catódico ou, mais raramente, no vidro holográfico. Será dado aqui, é o que se promete, o devido peso a todo rosto, apelido ou perfil exposto e conectado, o peso da opinião nos ombros, a alguns o peso do mundo. Manifestações virtuais serão sempre o que parecem: efêmeras e irreais; porém quando vier o convite às ruas, ultrapassaremos a interface, romperemos a conexão e nos encontraremos, aos esbarrões, em um só tumulto democrático. Será a revolução contra a falta do transporte público numa metrópole em que a elite não percebe que só come as sobras e crê na falta de dignidade do outro porque lhe falta honra desde sempre, onde é preciso tomar uma flor mais poderosa que o lírio que tanto dominou a Europa : o Oriente Próximo faz resplandecer e já nos presenteia com o jasmin.

São tempos de vida. Livre e laica.

Published in: on quinta-feira, 19 maio, 2011 at 1:58  Comments (3)  

Escombros

Neste mundo assombrado por demônios, que se há de fazer senão levantar uma pedra e dizer “veja, não há ninguém aí embaixo”? A natureza não se colocará a milagres e as igrejas, templos e outros erros humanos cairão com terremotos – com sorte também com vulcões e maremotos. Penso que religiões não ocorrem por acaso, tanto quanto acidentes nucleares jamais poderão ser chamados de acidentes sem a incoerência se instalar. O risco calculado, onde está? Para onde vão aqueles que correm de tiroteios, desabamentos e tsunamis?

Temo pelo mundo humano.

Sorrio à promiscuidade da vida que, sem dúvida, inventará espécies mais fantásticas.

Published in: on quinta-feira, 14 abril, 2011 at 23:39  Comments (3)  

Co-Romper!

 

Quero uma poesia meio purê de batatas

Sem nabo nem choro, quiabo nem vela!

A quantos nós vão os versos que desatas?

Faça logo, a óleo, giz, recorte ou aquarela

Traga-me já, para ontem, que dure amanhã

(mas a manhã inteira e um pouco mais tarde)

Prefiro madura, mas já aceito verde-maçã!

As palavras às vezes fazem greve geral e partem para o golpe militar tão logo lhes damos o benefício de um ócio criativo.

Published in: on terça-feira, 1 fevereiro, 2011 at 21:55  Comments (3)  

Exceção Geral

 

Foi um sonho ou uma valsa entre a porta e a rua, homens desciam a rua armados, batiam à porta e correram para dentro. Era preciso estar atendo às janelas, aos ruídos, às matilhas.

Não havia mais a sensação de estar à espera, mesmo as portas não pretendiam estar fechadas quando chegava na antessala. Era um desses que, sabendo-se forte, não fazia demonstrações ou praticava abusos. Ressuscitado de anos de resignação, aquele não era um a mais. Sua fraqueza era estar no tempo errado. O tempo dos homens já passara.

 

Published in: on domingo, 7 novembro, 2010 at 21:42  Comments (1)  

Viajar no Tempo

Lembramos que estávamos felizes, mas não lembramos dos músculos se contraindo para sorrir. Choramos co’as vacinas da infância, mas não lembramos da tal “picadinha” que a enfermeira falou.

Frequentei um outro espaço, visitei um outro corpo que não este. Seis anos atrás. Li as linhas que escrevi, mas que não são minhas – nem nunca foram. Era uma antiga canção ou uns tantos versos que não rimavam de propósito. Não fazia questão da métrica, essa digna burocracia daqueles que já foram tantas vezes lidos. Mas estava ali algo diferente desta juventude que tenho agora. Era um cheiro de frutas recém-lavadas junto a um som que ninguém jamais parou para ouvir.

Percorri o tempo entre esses seis anos assim que me encontrei naquelas letras manuscritas. Viajei ao futuro. Um poeta tão bom deve estar ocupado com as grandes questões da humanidade, deve ter uma obra extensa e ter realizado textos inigualáveis. Mas em que porta devo bater para encontrá-lo? Provavelmente ele deve estar ocupado com seus amores, seus estudos ou com a música. Ah, sim, deve ser um grande amante também.

Deve ser aquele homem impecável, terno e colete, elegante, sentado no banco daquele parque esperando alguém. Pensando bem, seis anos é pouco para alguém passar de ingênuo a cavalheiro. São adjetivos que requerem mais tempo que isso. Deve ser aquele que usa jeans e camiseta, despreocupado ainda. Mas não, seria um tolo se em seis anos não tivesse deixado de ingenuidades para preocupações mais relevantes. Afinal, é um grande poeta, tenho certeza…

Há uma porta sem maçaneta feita de vidro e aço, com batentes de madeira e que fica no meio da parede. Lá, intangível, vejo um perfil parecido com aquele. Não é um cavalheiro ou alguém despreocupado. Não  um eu-lírico, heterônimo, pseudônimo ou qualquer hipocrisia de autor. Será eu?

Só que não é coisa minha ser este, não nos últimos anos.

E de repente me sento naquela ingenuidade, em toda aquela certeza, sentida impulsivamente e com as imagens todas que construí em tão poucas linhas.

Às sensações que se reconstruíram de fora para dentro, invadindo-me em turbilhão, devo agora a dificuldade de reconhecer este grande poeta, ao olhar no espelho.

Os músculos se vão contraindo. Mas a quem devo o sorriso?

 

Published in: on segunda-feira, 18 outubro, 2010 at 2:47  Comments (2)