Tempo de Morrer

Não se pode. Quer. Deve. passar ileso. Incólume. Intacto. 

Não se. Quando. Talvez. Há. Existe. Tem. Sobrou. uma família. Comunidade. Sociedade. Dupla. Trio. Quarteto. Multidão. 

Muitos pontos finais, afinal, isentam-nos de fazer sentido.

As relações humanas há muito guardam minha esperança sobre este planeta (sempre insisto que não sou otimista), pois seu potencial é diverso – mesmo quando perverso, pra rimarmos.

Cada laço que formamos, ou formam conosco, ou formam-se, é um ponto-e-vírgula esquisito ou raro. Ah, os sinônimos! O período se encerra no ponto, mas a vírgula deixa espaço para continuidade do assunto. Essa é a perversidade do tempo-espaço gramatical. Se escrevemos uma vírgula sem querer e não sabemos como terminar a frase, pomos um ponto em cima e retomamos o evento com uma sentença fresca, recém-fabricada.

Anos atrás comecei a odiar minha irmã. Isso já passou porque sobrou apenas nojo. Indiferença será quando ela morrer. Tenho nojo de baratas, mas se vejo uma passar na rua não me afeta como vê-la em minha mesa enquanto almoço. Sobrou, daquilo que minha irmã foi, quando irmã, aos 15 anos, uma sobrinha. Agora com 15 também. Intriga-me que a genética não seja tão forte quanto parece quando temos aula de biologia no colegial. A genética é feita de falhas perfeitas. Se a falha funciona para mais de uma geração, ela se torna padrão. Não entendo de genética realmente, mas sempre me encantei com isso, até quando deus existia era uma ideia mágica.

Como a biologia sabe o que é falha e o que é passível de padronização? 

A sobrinha erra, será que aprende? Erra aos moldes dos pais biológicos que teve por alguns segundos. Não dá pra acreditar em biologia quando tudo soa como uma piada para explicar o que é karma? Algo está fora do lugar. Não entendo de karma, biologia, sobrinhas ou parentesco. Estou analisando falsamente este viés.

Errar é caminhar também, aprendi isso na 5ª série. Foi transformador entender que ‘cavaleiro errante’ tem um sentido tão intenso, eu escrevi um poema sobre lampião que a professora quis guardar. Comecei a buscar outras expressões assim e fui chamado de cínico. Estudei filosofia e fiquei transformado ao me entender, de fato e orgulhosamente, como cínico.

Voltando ao ponto-e-vírgula, compreendi desde a pré-escola o uso dessa acentuação quando errei um ditado da professora e ela disse que podia por um ponto em cima da vírgula. Fui atrás para entender como funcionava. Será que haviam outros sinais que podiam se misturar? A resposta veio anos depois, pode-se misturar tudo, +/-.

Entendo que as relações funcionam conforme a intensão de ponto ou de vírgula que se dá. Quando se escolhe manter o vínculo no lugar de substituí-lo por nojo ou ódio, é preciso pedir para o biógrafo lembrar de colocar ponto-e-vírgula.

Published in: Sem categoria on sábado, 14 junho, 2014 at 0:41  Comments (2)  
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