Divorciedade

Como entender que meu estado civil é a ausência duma relação findada?

Serei até a extinção das instituições um ex-marido. Não sou solteiro. Divorciado. Parece-me um impedimento aos que desejam mudar de vida, desistir de sonhos desassistidos, revisar planos futuros. Precisarei sempre explicar a outrem o que fiz? Eventualmente será preciso continuar a dar as exaustivas explicações que os idiotas me solicitam  – mesmo não sendo íntimos:
– Mas por quê você terminou? Por que não insistiu? Tentou x, y, z? Você não a ama?

Já não basta qu’eu tenha maltratado a quem amo porque não creio na nossa compatibilidade? Arre, quantos semi-deuses nos cercam!

Anúncios
Published in: Sem categoria on terça-feira, 12 dezembro, 2017 at 1:12  Deixe um comentário  

Queda Livre

Era preciso estar solto. Sentir medo, temer o próprio pânico. Quando atravessamos a camada de nuvens parecia insustentável prosseguir, mas ninguém ao redor para apoiar desistentes – ainda bem!

A ideia principal era enfrentar antigos monstros internos. Sempre tive aquele pesadelo de estar caindo, mas frequentemente não acordava com o susto. O fim do sonho é mais tenebroso quando não despertamos, parece. Também é preciso comparar a realidade com as boas imagens do cérebro. Sonhei bastante que voava, daqueles sonhos em que se controla em certa medida o voo. A realidade é incomparável, mas lembro melhor de alguns sonhos e parece qu’eu sabia de maneira objetiva o que poderia ser esta experiência.

Quem sabe por isso, estando à beira do avião já com a porta aberta e o tapete de nuvens abaixo, não senti nada. Fiquei ofegante. Foi um momento em que congelei a memória, de repente caí. Ilógico, irracional, porém extremamente seguro. Coragem tiveram os que inventaram os tantos modelos de paraquedas que tivemos. Eu fui, talvez, ousado; mas ousadia em relação ao meu sedentarismo. Quem sabe daqui pra frente não seja ousadia (mas uma rotina surpreendente) fazer coisas assim.

Não saí ileso. Com ouvidos tampados e curvas bruscas devido ao vento, enjoei. Esperei chegar ao solo para pôr o café-da-manhã para fora (por cortesia com o instrutor, que sentiria no rosto caso eu tivesse me deixado levar em pleno voo).

E nem de longe o dia inteiro de enjoo que tive o dia inteiro foi capaz de apagar o melhor do dia.

Acho que também nunca presenteei alguém com algo tão bonito e incrível.
Ela voltou ao planeta com uma felicidade inédita.

DCIM100GOPRO

Salto em Boituva – 21.1.MMXVI

Estranhamente, esse “pequeno passo para fora do avião, mas um grande salto de paraquedas” foi uma entre outras coisas que considero numa lista de inovações da minha vida adulta:
[…]

.Ter:

.comido palmito – e gostado

..comido tomates (fatiados) – e gostado

…trabalhado com livros – vendendo, emprestando, lendo.

….feito uma tatuagem com significado para qualquer ser humano  (?)

…..visitado poetas mortos, entre outros escritores

[continuará]

Published in: on sábado, 23 janeiro, 2016 at 2:35  Deixe um comentário  

Meus Rituais

Amanhã eu me caso. Os preparativos são exasperantes! É preciso lembrar o motivo de tanto preparo, sempre.

Possuo uma incompetência uniformemente acelerada em dar conta de tomar para mim os preparos, não é por machismo, mas falta de coordenação produtiva. Neste momento eu não devia estar postando num blog, claro. Ah, os pequenos prazeres de parar o que se devia fazer por um motivo aleatório!

Em verdade, preparo um discurso. Um voto. Uma promessa?

Constam aqui alguns momentos qu’eu não esperava rever em nenhum outro lugar senão num blog solitário nesses tempos de youtubers. Minh’alma esteve escrita aqui, com Ela. Viajamos no tempo, vimos revoltas, visitamos poetas. Tudo na primeira do plural! E eu que nunca gostei de trabalho de equipe, estou aqui, casando!

Dizem que não se pode casar pensando em como é fácil hoje em dia separar. Eu penso o oposto, por ser tão fácil estar só é que esta é uma decisão extraordinária. Alguém da família dela comentou que é bonito nos já estarmos morando juntos e decidirmos “publicar” nossa união com tanta convicção. Tempos novos, tempos bons!

Published in: Sem categoria on sexta-feira, 10 julho, 2015 at 4:10  Comments (2)  

Tempo de Morrer

Não se pode. Quer. Deve. passar ileso. Incólume. Intacto. 

Não se. Quando. Talvez. Há. Existe. Tem. Sobrou. uma família. Comunidade. Sociedade. Dupla. Trio. Quarteto. Multidão. 

Muitos pontos finais, afinal, isentam-nos de fazer sentido.

As relações humanas há muito guardam minha esperança sobre este planeta (sempre insisto que não sou otimista), pois seu potencial é diverso – mesmo quando perverso, pra rimarmos.

Cada laço que formamos, ou formam conosco, ou formam-se, é um ponto-e-vírgula esquisito ou raro. Ah, os sinônimos! O período se encerra no ponto, mas a vírgula deixa espaço para continuidade do assunto. Essa é a perversidade do tempo-espaço gramatical. Se escrevemos uma vírgula sem querer e não sabemos como terminar a frase, pomos um ponto em cima e retomamos o evento com uma sentença fresca, recém-fabricada.

Anos atrás comecei a odiar minha irmã. Isso já passou porque sobrou apenas nojo. Indiferença será quando ela morrer. Tenho nojo de baratas, mas se vejo uma passar na rua não me afeta como vê-la em minha mesa enquanto almoço. Sobrou, daquilo que minha irmã foi, quando irmã, aos 15 anos, uma sobrinha. Agora com 15 também. Intriga-me que a genética não seja tão forte quanto parece quando temos aula de biologia no colegial. A genética é feita de falhas perfeitas. Se a falha funciona para mais de uma geração, ela se torna padrão. Não entendo de genética realmente, mas sempre me encantei com isso, até quando deus existia era uma ideia mágica.

Como a biologia sabe o que é falha e o que é passível de padronização? 

A sobrinha erra, será que aprende? Erra aos moldes dos pais biológicos que teve por alguns segundos. Não dá pra acreditar em biologia quando tudo soa como uma piada para explicar o que é karma? Algo está fora do lugar. Não entendo de karma, biologia, sobrinhas ou parentesco. Estou analisando falsamente este viés.

Errar é caminhar também, aprendi isso na 5ª série. Foi transformador entender que ‘cavaleiro errante’ tem um sentido tão intenso, eu escrevi um poema sobre lampião que a professora quis guardar. Comecei a buscar outras expressões assim e fui chamado de cínico. Estudei filosofia e fiquei transformado ao me entender, de fato e orgulhosamente, como cínico.

Voltando ao ponto-e-vírgula, compreendi desde a pré-escola o uso dessa acentuação quando errei um ditado da professora e ela disse que podia por um ponto em cima da vírgula. Fui atrás para entender como funcionava. Será que haviam outros sinais que podiam se misturar? A resposta veio anos depois, pode-se misturar tudo, +/-.

Entendo que as relações funcionam conforme a intensão de ponto ou de vírgula que se dá. Quando se escolhe manter o vínculo no lugar de substituí-lo por nojo ou ódio, é preciso pedir para o biógrafo lembrar de colocar ponto-e-vírgula.

Published in: Sem categoria on sábado, 14 junho, 2014 at 0:41  Comments (2)  
Tags:

Entre o Esplêndido e o Miserável

Image

“[…] todo conhecimento verdadeiro é impossível. Só se pode enumerar as aparências e apresentar o ambiente”, diz-me o homem morto, por meio de seu livro. Vejamos, colocando em perspectiva, a quem interessa todo o conhecimento, se é que há algum, se tudo que aprendemos, dessa maneira tão mal formulada pela humanidade, irá se dissipar?

É estúpido perguntar “se fosses morrer amanhã, o que faria?” quando, morrendo, matamos o significado do que fizemos – é como a obra de arte contemplada no museu que representa uma certa ideia do artista e da qual jamais chegaremos às razões de criação (e mesmo que o autor esteja lá para explicar, vivo e eloquente, criaremos nossa própria representação). À nossa maneira, passamos a vida buscando convencer a todos, inclusive nós mesmos, da encenação que se vai improvisando. Então escrevemos para cristalizar um ato ou outro.

Mentiras (verbo sem gênero, hora ou local/adj. para os outros/vf. verdade para melhor compreensão destas):  pequenos roteiros que criamos quando estamos cansados.

Eutanásia (indefinível?): homicídio doloso/qualificado por motivo fútil ou desinteressante; assassinato em que ambas as partes concordam.

Essas palavras me ocorrem no branco entre uma letra e outra. Voltarei a ler ou a sonambular.

Published in: Sem categoria on segunda-feira, 23 setembro, 2013 at 5:18  Comments (2)  
Tags: ,

Qu’estamos a contar?

 

“Cada homem crê poder dizer o que pensa, mas na realidade acontece o inverso: ele só pode pensar o que pode dizer e porque determinada língua, independente dele, lho permite dizer. Inversão completa do cartesianismo: não é porque ‘eu penso’ que posso dizê-lo, é porque posso dizer ‘eu’ que posso dizer, até crer, que sou uma substância pensante”

Benveniste, Émile. De la subjectivité dans le langage.

 

Quando um livro que não pretendia me fazer ‘sentir’ atinge-me até ficar estático ante tudo que posso pesquisar para entender, entre tantas outras coisas, os benefícios do suicídio como ato livre. Estranhamente, não penso em suicídio como solução para mim, embora não seja meramente um objeto de estudo a possibilidade ainda parece distante.

Tantas interrogações a colocar por aí, como poderia aparecer com um ponto final?

Published in: on quarta-feira, 11 setembro, 2013 at 1:44  Comments (2)  

O fim da história líquida

295207_110622942371224_3951976_n

Santiago, 2011. Praças em fogo, ruas pichadas e até os mais idosos apoiavam a luta por educação pública até o nível superior.

A revolução é confusa, difícil de se explicar e quando se estabelece deixa seu estado gasoso em busca de algo mais sólido. Daí a mente tacanha olha, confusa, as opiniões que lhe cabem tentando fazer adivinhações por meio dos preconceitos mais fugazes. Não está embaixo da minha janela, nem nos jornais daqui ou de outro lugar, não está nas telas, nas páginas amarelas. Espero que floresça no anonimato apartidário, na identidade coletiva.

Fico a pensar que espectadores ou são desleais, ou são desonestos.

Não admito este silêncio entre paredes. Tenho poucos dias para decidir o que posso ser nisto.

Este dia treze de Junho doeu assistir.

Published in: on sexta-feira, 14 junho, 2013 at 4:16  Comments (2)  

Sem eiras, beirais ou laranjeiras.

…pode sim pode sempre como toda coisa nossa

que a gente apenas deixa poder que possa

[Leminski de 1987]

 

Image

Meus vizinhos passam a desexistir mais e mais. Vão vendendo lares como se fossem casas. São estatísticas, especulações, devem ser feitos de expectativas temerosas. São metros quadrados de silêncio. Pouco em pouco e todo muro em que sentei vira limite. Cada casa que explorei deixa de ser vizinhança para se tornar território. O carteiro Emerson está submetido às malas-diretas dos escritórios e nada mais. Talvez nos salvemos disso tudo vez em quando, numa carta que sabe de onde veio…

_____________________________________

Deixar que a vida seja tudo como se viver nos desse esse tipo de opção.

*foto da Vila Maria Zélia, lugar fantástico escondido num município besta.

Published in: Sem categoria on terça-feira, 11 junho, 2013 at 4:18  Comments (1)  

Bureaucracy

Sobre não entender  duas línguas e três razões contra um visto.

Burocracia é um regime que tem o poder de reverter o sentido da palavra suficiente contra nós. Linhas invisíveis, recusas arbitrárias, papéis “importantes”. Estranhamente, um refugiado de guerra escapa a quaisquer questionários e recebe um visto de residência. Mais uma vez a frequente sensação de estar sempre na situação intermediária – nem refugiado, nem abastado. Devo ser da classe média, não daquela que viaja mais para o exterior que para o próprio país ou aquela que reclama dos avanços sociais, mas d’alguma classe entre isto ou aquilo.

O oficial “não ficou convencido” de que preencho os requisitos. A recusa sempre soa como uma acusação.

Resta-me não estar convencido por isso.

Published in: on quinta-feira, 6 junho, 2013 at 2:41  Deixe um comentário  

Cães-de-Guarda da Burocracia

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[Álvaro de Campos]

Entre a tragédia e a farsa…

Fico a me perguntar se, num bar ou na rua, qualquer um me propusesse uma ousada questão, eu me colocaria na posição de professor e arrebataria sua audácia com uma refutação sem igual: responder é parte da minha profissão, quanto está disposto a investir para saber isso que tanto lhe importa?

Quem sabe se o amigo poeta só fizesse versos pagos, não seria milionário?

Ou se só entendêssemos arte patrocinada, esporte profissional e debates acadêmicos?

Essas perguntas não são interessantes. Interessa entender a razão de sua retórica: falo aqui de vocação. O dicionário não nos salva da estupidez ou do desentendimento, por isso uma história autobiográfica cabe bem:

Eu tinha lá meus 6 anos quando, num colégio mais-que-católico veio à minha sala uma freira, para conversar sobre o que fosse possível – talvez com alguma intenção doutrinária, não tenho como lembrar. Abriu-se espaço para perguntas e eu logo o ocupei: “como você se tornou freira, não quis ser outra coisa?”, claro que sua resposta envolveu um ‘chamado’ divino, isto é, disse especificamente “eu me tornei freira porque essa é minha vocação”. Um chamado vindo do desconhecido. Ela se entregou à ‘profissão’ que lhe cabia, aquela na qual sentiu mais encaixe. Não recusava ser freira em nenhum minuto do dia, assim sendo perfeitamente definida [não só devido ao hábito].

Eu sei de mim como professor. Sê-lo gratuitamente não me ofende porque é mais necessidade minha que o oposto.

O cão foi lançado à calçada por um carro cujo motorista não fez nada que pudesse aplacar as dores de sua vítima. Talvez o anônimo omisso fosse cartesiano. Lembro Descartes defendendo que animais não têm alma, seus gritos de dor são apenas reflexos mecânicos. Recuso-me furiosamente.

Um cão e um carro soltos na rua não são acidentes, tanto quanto vazamentos nucleares não o são. Alguém descuidou ou maltratou o cão. Outro alguém escolhe dirigir e agir imbecilmente [é preciso ser alfabetizado para dirigir, afinal]. Nenhuma coincidência nisso, muito menos naquilo que se seguiu após o encontro desses fatos.

O cachorro corre gritando. Deita do outro lado da rua. Corri e abracei em meu colo. Alguém xinga. Seus palavrões eram contra o motorista que andava à sua frente e que não parou nem para ver se amassou o próprio carro. Esse cara ofereceu ajuda de todos os tipos.

Fomos atendidos por mais de cinco profissionais e as únicas atualizações de estado de saúde que ouvi se referiam, antes de mais nada, ao preço acumulado dos procedimentos. Eu perguntava o que era estritamente necessário para ter certeza da saúde do cão. Foram lá setecentos e tantas necessidades.

Eu conhecia o acidentado há cinco minutos. Ele herdou dinheiro que já era do banco, através de mim. Se o banco soubesse quem sou, não me daria crédito. Sou um cão tolerado pela gerência porque sou um endividado inofensivo, domesticado.

Nenhum tipo de desconto real foi feito e a cada exame obviamente supérfluo que desautorizava, obtinha incertezas assustadoras da veterinária de carreira. Por que ela não se tornou funcionária pública? Podia torturar pessoas com carimbos em três ou quatro vias! Uma burocrata que mexe com merda e sangue e, mesmo assim, apareceu com as mãos e roupas limpas para falar conosco.

Acabei por limpar eu mesmo toda a bosta que a “doutora” deixou no traseiro do cão. Limpei ali, enquanto falávamos de preço, lei da oferta e da procura, pesos e medidas.

Minha vocação é mostrar o rastro de merda dos medíocres.

Published in: on sábado, 18 maio, 2013 at 6:05  Comments (1)